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O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami





"O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver qualquer reação, ambas são transformadas". JUNG, C. G.

Títulos são coisas fascinantes. Acredito que quanto maior e/ou mais louco for o título, maiores são as chances de eu ser atraído pela obra. "O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação", que descobri através de um marcador de página (muito bonito, por sinal), não é uma exceção a essa minha teoria. No momento que descobri que o autor desse livro com nome gigante e estranho era nada mais, nada menos do que Haruki Murakami, eu logo senti a necessidade de ir atrás do livro e saber do que se tratava. Mas não mentirei: nunca tinha lido nada do senhor Murakami e logo percebi que "O incolor Tsukuru Tazaki" seria um ótimo lugar para começar.

Responsável pela trilogia de grande aclamação pelos críticos literários, 1Q84, Murakami era meu conhecido de vitrine de loja havia um bom tempo. Sempre resisti à tentação de comprar um de seus livros (principalmente 1Q84) e lê-lo de forma voraz, e não sei explicar o motivo de ficar na defensiva ou de me sentir tão atraído pelos livros de um autor que eu jamais havia lido. Talvez (e entro no campo das coisas incertas agora), houvesse uma espécie de aura ao redor dos livros do senhor Murakami, como se dissessem "se você me ler, eu te darei algo especial; te farei se sentir especial". Foi assim que eu me senti após terminar "O incolor Tsukuru Tazaki": especial por ter lido um dos melhores livros da minha vida. Sem exageros.

Star Wars: Provação, Troy Denning










Este livro foi uma cortesia da editora Aleph

Nunca fui um super fã de Star Wars, pelo menos não da mesma forma que sou fã de Doctor Who, porém, toda vez que eu descobria que estava passando um filme, seja da trilogia clássica ou da prequel, na televisão, eu logo corria para tentar assistir alguma parte do filme. Sei algumas falas, joguei alguns jogos, mas nunca havia tido a experiência de ler algo do universo expandido de SW, então esse é o relato do meu primeiro contato com a literatura de uma galáxia muito, muito distante.

Seguindo o rumo de algumas das obras mais aclamadas de Star Wars, Provação acontece após os eventos de Retorno de Jedi (o episódio VI). A diferença é que neste livro 40 anos se passaram desde a queda do Império, e vemos o trio original (Luke Skywalker, Han Solo e Leia Skywalker/Solo) bem mais velho e com mais conhecimento.

Sobre a Escrita, Stephen King



Fui conhecer Stephen King de verdade quando descobri sobre sua série de livros, A Torre Negra. Recordo-me de ter ido procurar uma certa palavra em inglês no Google Tradutor ("gunslinger") e, quando recebi a tradução, acabei cometendo o engano de colocar a palavra traduzida na barra de pesquisa do Google. O resultado disso foi meu primeiro encontro com O Pistoleiro, primeiro volume da série de livros citada acima. Depois que li as primeiras palavras do livro, antes de mesmo de comprá-lo, eu sabia que o King havia me ganhado. Isso foi no final de 2010. Hoje, tenho mais de 30 livros dele em minha coleção, incluindo edições brasileiras e importadas, e uma tatuagem no pulso esquerdo em homenagem ao Ka, símbolo de grande poder na Torre Negra.

Para quem não sabe, Stephen King é o autor de mais de 60 romances. Considerando que sua carreira de escritor começou com o lançamento de Carrie nos anos 70, são cerca de 40 anos de carreira, o que sugere mais de um livro escrito e publicado por ano. Isso sem considerar os contos que ele lança e que acabam sendo reunidos, uma hora ou outra, em coletâneas como Quatro Estações e, o mais recente trabalho dele publicado no Brasil, Escuridão Total Sem Estrelas. Isso é muita coisa. Muita mesmo. Então, quem melhor para escrever um livro falando sobre a arte de escrever do que um autor prolífico e de sucesso como ele?

Almaços (9th Pub)



Ele havia entrado na padaria para comprar um maço de cigarros, mesmo sabendo que ela não vendia e que nem tinha dinheiro para comprá-lo.
─ Por favor ─ disse ele para a vendedora do balcão, ─ um maço de cigarros.
─ Senhor, não vendemos cigarros ─ respondeu a mulher atrás do balcão.
─ Mesmo assim, eu gostaria de comprar um maço de cigarros.
─ Isso é uma padaria, não vendemos cigarros.

À vista já tarde


Estava sentado no café tendo uma conversa interna com meus vários eus enquanto discutia bravamente com um saquinho de açúcar que não queria abrir. Sentava-me bem no meio do café, com meu assento apontado para a porta. Toda a vez que o sininho dela batia, eu levantava meus olhos e via quem entrava ou saía. Discuti mais um tempo com o açúcar que colocava em meu café, tentando deixá-lo nem tão doce e nem tão forte. Quanto terminei minha briga, na qual eu venci, comecei a criar um redemoinho na caneca com uma colher. Fazia isso enquanto mantinha meus olhos atentos à porta. Vi rapazes entrando sozinhos e saindo sozinhos. Vi algumas garotas entrando em grupo, saindo sozinhas, com antecipação. Eu olhava para todos que ousavam entrar e sentar. Quem pedia alguma coisa para beber ou comer. Olhava-os todos com uma determinação forte e vulgar. Imaginava quem eram, onde iam, o que faziam para ganhar o dinheiro. Imaginava cenas de amor e esperança com aquelas pessoas. "Ei, talvez eu pudesse sair aqui e ir falar com ela. Ela parece ser legal", eu discutia comigo mesmo. "É, mas você nem conhece ela. Fora que ela está com as amigas"."Tem razão. Deixa quieto. Mas aquela ali parece formidável e se..." "Não, cara. Não". "Tá certo, tá certo..."

Doctor Who: Mortalha da Lamentação, Tommy Donbavand



Não me lembro muito bem da primeira vez que ouvi falar de Doctor Who. Eu devia ter entre 10 e 11 anos e passava em algum canal, não sei bem ao certo qual. Assistia alguns episódios, mas a comandante do Controle da Televisão era minha mãe e, com o tempo, a série foi entrando na gaveta da memória para ser revivida apenas em 2012, quando me relembraram de sua existência e resolvi ir atrás de todos os episódios. Desde então, Doctor Who se tornou uma das minhas séries favoritas, fazendo com que eu comprasse enfeites, jogasse os jogos e fosse atrás dos livros e hqs para complementar meu envolvimento neste mundo fantástico do Doutor e seus companheiros.

O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson

Na primeira vez que vi o trailer de O Grande Hotel Budapeste, sem saber o nome do filme e nem o diretor, eu logo percebi que seria mais uma obra fantástica de Wes Anderson, responsável por um dos meus filmes favoritos, Moonrise Kingdom. É impossível não perceber as técnicas dele ainda no trailer. Os cortes de câmera, as continuidades, as paletas de cor em cada cena. A excentricidade dos eventos e do cenário. Grande Hotel era Wes Anderson e eu não poderia perder esse filme. Porém, eu o perdi enquanto ainda passava nos cinemas e só tive a chance de vê-lo em casa, no conforto de meu sofá. Não importando onde eu o tenha visto, foram ótimos 90 minutos da minha vida gastos com este longa.

Meia Noite em Paris, Woody Allen

Recordo-me de estar assistindo a entrega do Oscar em 2012 quando ouvi falar de Meia Noite em Paris pela primeira vez. Naquela época, eu mal assistia as premiações cinematográficas; às vezes passava pelo canal certo na hora certa e torcia para qualquer filme aleatório que, para mim, tinha maiores chances de ganhar o tal prêmio. Nessa mesma premiação que vi, a obra ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original, e lembro até de ter escrito o nome atrás de uma folha qualquer para não esquecer, porque havia ficado curioso em relação a ele. Acabei guardando a folha e me esqueci do filme por um tempo. Alguns meses se passaram até que a achei entre minhas coisas e fiquei com vontade de assistir o tal filme. Fui atrás dele com enorme tentação (apesar de não ser fã do ator principal, Owen Wilson) e, com toda a certeza, não me arrependi. Além de ter superado minhas expectativas, Meia Noite em Paris se tornou, a partir daquele momento, um dos meus filmes favoritos.

Deuses Americanos, Neil Gaiman

A primeira vez que eu ouvi falar de Deuses Americanos, na verdade eu o vi. Um amigo meu, durante algum dos estranhos anos do colegial, estava lendo e dizendo coisas boas sobre ele, coisas que eu não lembro; esqueço as palavras, mas lembro do sentido delas. Naquela época, eu não conhecia direito os trabalhos do Neil Gaiman, e a capa de Deuses Americanos me deixou meio blasé. Fui redescobri-lo apenas depois dos estranhos anos do colegial, depois que li minha primeira edição de Sandman e que eu precisava, como uma necessidade alimentícia, ler mais e mais dos trabalhos de Gaiman. Acabei conseguindo uma excelente promoção num site deveras conhecido da internet, onde comprei 4 livros dele por um preço muito camarada. E mesmo com essa necessidade, Deuses Americanos foi sempre ficando para depois, aquele reino encantado onde deixamos tudo aquilo que não queremos fazer agora. Mas o acabei pegando para ler agora, neste último mês de 2014, e aproveito o vazio causado para escrever minhas impressões.

Um pouco antes de começar a lê-lo, pensava que Deuses Americanos era uma versão americanizada de Lugar Nenhum, obra que eu mesmo já resenhei há alguns meses. Entretanto, logo ao terminar o primeiro capítulo, percebi que estava muito enganado a seu respeito: Deuses era mais em todos os sentidos. Mais longo. Mais intenso. Mais adulto. Mais incrível. Mais admirável. Muitos leitores consideram este livro o melhor da carreira de Gaiman e agora entendo muitíssimo bem o porquê.

O livro todo tem um tom estranho, como se só as coisas necessárias para aquele momento estivessem sendo mostradas, com o ar de mistério pairando sobre o leitor do mesmo jeito que paira sobre os espectadores durante uma peça de teatro, esperando ver quem será o próximo ator a entrar e quais serão as mudanças de cenário no próximo ato. Isso te faz grudar no sofá, na cadeira, na cama, e virar as páginas em busca de mais respostas, de mais mistérios.

E o tema é absurdamente genial. Neil Gaiman sempre trabalha com o conceito de entidades mágicas em suas obras, em coisas tão incrivelmente loucas que fazem muito sentido, e Deuses não fica para trás nesse quesito. Imagine que todos os povos que foram para os Estados Unidos levaram, junto com eles, seus deuses, sua fé, sua cultura, e imagine que esses deuses se instalaram nos Estados Unidos, se alimentando dos rituais feitos por aqueles que acreditavam neles, dos sacrifícios, das oferendas. Imagine também que esses mesmos deuses, com o passar do tempo, foram ficando mais fracos porque as pessoas paravam de acreditar neles e começavam a louvar outras divindades. Divindades como a mídia, como o computador, como a autoestrada. Divindades novas para tempos novos e modernos, onde a crença deixa de seguir o antigo e prossegue com o que é real, com o que é novidade, com o que tangível. Imagine então que vai acontecer uma tempestade e que os deuses novos estão se preparando para exterminar os deuses antigos e declarar, de uma vez, que os Estados Unidos, essa terra desolada que não foi feita para os deuses, pertence a eles. Imaginando tudo isso, você acabou de chegar na espinha dorsal de Deuses Americanos.

A história conta tudo isso a partir da visão de Shadow, um presidiário que está prestes a ser libertado devido a bom comportamento. Um dia antes de sua liberdade, ele é levado até o diretor da prisão que o deixa sair mais cedo por motivos de força maior: a mulher de Shadow, Laura, acabou de morrer. Shadow, então, sai da prisão e pega seu caminho para comparecer ao enterro de sua mulher, até que um velho ruivo, de terno claro e gravata, aparece em sua vida lhe oferecendo um trabalho. Seu nome é Wednesday e ele é um pilantra. Depois de uma fase de negação, Shadow acaba aceitando trabalhar para o senhor Wednesday, servindo de um faz tudo para ele. Wednesday, obviamente, é uma das divindades antigas (mesmo que você não saiba qual logo de cara), e ele parte com Shadow ao seu lado numa road trip em busca de outras divindades antigas, alertando-as para a guerra iminente e fazendo com que elas se unam a sua causa.

Lendo o livro através da visão de Shadow, aquele que não sabe absolutamente nada das coisas, o clima de mistério e de suspense é sempre presente. Gaiman, durante o livro, vai deixando pistas para que, antes mesmo dele dizer o que está acontecendo e quem é quem, o leitor consiga desvendar algum desses mistérios, o que não torna somente o livro interessante no ponto de vista da temática, como também muito divertido de ser lido.

Deuses Americanos é um livro que me surpreendeu e que deixou aquele vazio característico de quando você termina de ler um bom livro e não sabe mais o que fazer da vida. Ele tem Gaiman surtado em várias características (o que é algo maravilhoso), tem divindades de várias culturas mundiais, tem suspense, tem comédia, tem personagens carismáticos, tem inúmeros plot twists, principalmente nas últimas duas partes do livro, e tem filosofia. Minha recomendação neste exato momento é a seguinte: leia-o o quanto antes, pois é uma experiência incrível.

Guardiões da Galáxia, James Gunn







Quando fui assistir O Espetacular Homem-Aranha 2 no cinema, havia dois garotos algumas fileiras atrás vendo e falando besteiras durante os trailers. Um desses trailers era de Guardiões da Galáxia, o filme que eu mais estava contando os dias para assistir, onde eles disseram, e eu cito: "esse filme vai ser uma porcaria". Achei o comentário interessante porque era exatamente o contrário do que eu pensava. No fundo, mesmo com várias pessoas falando que o filme seria horrível, principalmente por causa dos vídeos promocionais que deixavam bem claro que o filme seria "zoeira" pura, eu sabia que ele seria fantástico, e a Marvel, mais uma vez, não me decepcionou.

Guardiões conta, em primeiro plano, a história de Peter Jason Quill, que, ainda criança (depois de uma das cenas mais tristes que já vi), é abduzido e levado da Terra. Longe de casa, Peter se dá a alcunha de "Senhor das Estrelas" e entra para de um grupo de mercenários espaciais comandado por Yondu, o mesmo responsável pela sua abdução. 26 anos depois de ter sido raptado, Peter encontra-se sozinho no planeta abandonado Morag, em busca de um orbe de grande valor. Logo após consegui-lo, ele é abordado por soldados sob o comando de Ronan, o Acusador, um radical Kree (uma das principais raças alienígenas no Universo Marvel), que não só exigem o orbe como também dizem que vão prender Peter e levá-lo a Ronan. Peter aproveita uma deixa e consegue fugir dos soldados, chegar em sua nave, sair de Morag e ir para Xandar, com o propósito de vender o orbe e manter o dinheiro somente para ele, traindo, assim, o grupo de mercenários do qual ele fazia parte.

Os soldados retornam para a nave de Ronan e dizem o que aconteceu. Inflamado pela necessidade de conseguir o orbe para que Thanos, o Titã Louco, destrua Xandar para ele, Ronan ordena que Gamora, uma das duas filhas de Thanos "emprestadas" a ele, pegue o orbe de volta a todo custo. Gamora, então, vai atrás de Peter para recuperar o orbe, iniciando uma cena de perseguição e luta entre ambos. No meio disso, Rocket, o guaxinim alterado geneticamente, e a árvore falante Groot ("Eu sou Groot"), ambos caçadores de recompensas, descobrem que os mercenários espaciais colocaram um valor pela cabeça de Peter, devido a traição dele em Morag, e acabam entrando no meio da disputa pelo orbe. Depois de muito tumulto causado, a milícia de Xandar, a Tropa Nova, prende os quatro e os leva para a prisão de segurança máxima Kyln, onde é apresentado Drax, o Destruidor, que perdeu sua mulher e filha pelas mãos de Ronan e procura vingança. Depois de algumas reviravoltas, os cinco se unem para tentar descobrir o que é o orbe afinal de contas e impedir que Ronan bote suas mãos nele.



A história é bem construída, variando a visão da história entre a de Peter e seu grupo de "amigos", de Ronan e seus subordinados, de Yondu e seus mercenários e de alguns membros da Tropa Nova. O mistério sobre o orbe, que é resolvido um pouco depois da metade do filme, já era de se esperar pelo fãs mais hardcore dos filmes da Marvel, mas é uma ótima surpresa para aqueles que não faziam a menor ideia do que se tratava. Além de ser uma parte importante da construção do filme, o orbe serve de conector com todo o Universo Cinematográfico da Marvel, afetando até eventos em futuros filmes, como Vingadores 3 (sim, Vingadores 3). O final, apesar de ser um pouco estranho, te fazendo perguntar "mas o que é isso que ele está fazendo?", é muito bom e entra em sintonia com a composição do filme, que varia da ação espacial (lembrando bastante os filmes clássicos de Star Wars) à comédia espacial (com direito até a uma piada pesadíssima - e hilária - sobre Pollock).
Os efeitos especiais são de encher os olhos de alegria. O visual das naves, das armas, das roupas, da galáxia num geral, é muito bonito, usando uma palheta de cores variadas e bem vibrantes, o que acaba realçando a peculiaridade da galáxia exótica mostrada no filme.

A trilha sonora é digna de aplausos. Nomeada de "Awesome Mix Vol. 1", ela é composta, inteiramente, por músicas dos anos 70, e serve como um outro personagem principal na história: Peter, quando é abduzido, tinha consigo um walkman com um fita feita por sua mãe com o mesmo nome da trilha sonora. Então, a todo momento que ouvimos alguma música no filme, é como se estivéssemos ouvindo a mesma fita que a mãe de Peter fez com tanto amor para ele. Essa fita/trilha sonora consiste em 12 músicas, com artistas como David Bowie e Marvin Gaye no meio, e é excelente em todos os sentidos, partindo da primeira música até a última. A seleção foi muitíssimo bem feita e se encaixa perfeitamente com os momentos em que é tocada no filme. Além disso, para comprovar o que estou dizendo, a Awesome Mix Vol. 1 chegou a ficar em 1° lugar no iTunes e na Billboard 200, que cataloga os 200 melhores álbuns avaliados pela popularidade e pelas vendas.



Unindo comédia, ação, quadrinhos, ficção científica e uma trilha sonora saudosista, Guardiões da Galáxia, a aposta mais acirrada e perigosa da Marvel, se mostra um filme espetacular. Tendo a garantia de ótimas duas horas de diversão e risadas, Guardiões, em minha opinião, reina como o melhor filme lançado pela editora até agora, superando, inclusive, o grande sucesso que foi Vingadores 1. Se você for fã de filmes de quadrinhos como eu e ainda não viu, corra e veja logo; não se arrependerá. Mas se você não for fã de quadrinhos como eu, não importa; corra e veja o filme também. Eu garanto que não irão se arrepender, assim como tenho certeza que aqueles dois garotos no cinema, se viram, não se arrependeram.

X-Men Dias de Um Futuro Esquecido, Bryan Singer


"Tantas batalhas travadas ao longo dos anos... e ainda, nenhuma como esta. Estamos destinados a nos destruir, ou poderemos mudar uns aos outros e nos unir? O futuro está realmente definido?"
Quando descobri que a Fox iria fazer mais um filme dos X-Men, os mutantes mais famosos da Marvel, fiquei eufórico: minha infância foi baseada, praticamente, em desenhos e filmes de heróis, e, entre os que eu mais via, estavam os dos X-Men. Mas, quando disseram que o novo filme seria uma adaptação de um dos arcos de quadrinhos mais famosos deles, eu surtei.

Para aqueles que não sabem, "Dias de um Futuro Esquecido" é a adaptação de um arco relativamente curto (duas edições) com o mesmo nome. Nele, temos um vislumbre de um futuro distópico onde os mutantes, se não foram mortos, são procurados ou estão presos, assim como os humanos. Sentinelas, robôs gigantes construídos para eliminar a chamada "ameaça mutante" são os encarregados pela "justiça" e pelos massacres. No meio disso, temos um grupo de mutantes presos, com membros como Magneto (numa irônica cadeira de rodas), Tempestade, Colossus e Kitty Pride, que acha uma maneira de enviar a consciência de Kitty de volta ao passado para evitar o assassinato do candidato a presidente, Robert Kelly, pelas mãos da Irmandade de Mutantes (chefiada por Mística) e alterar os rumos do futuro, impedindo que os Sentinelas fossem construídos e dominassem o mundo.



A premissa da versão cinematográfica é a mesma, mas com alguma alterações: temos um futuro distópico governado por Sentinelas muito mais avançados do que a princípio usando uma tecnologia especial feita para contra-atacar os poderes dos mutantes. Nesse futuro, temos vários grupos de mutantes lutando para sobreviver e acabar com a guerra, que se juntam, atraindo vários Sentinelas, para realizar um último plano: enviar a consciência de Wolverine aos anos 70 para que ele junte Charles Xavier e Magneto em pró do bem maior, que é impedir Mística de matar Bolivar Trask, o criador dos Sentinelas, durante a Conferência de Paz, em Paris, ato que incita a necessidade do programa Sentinela contra a ameaça mutante.

Com isso, temos Wolverine em plenos anos 70 tentando fazer com que Xavier, que vive uma depressão profunda devido aos acontecimentos finais de X-men Primeira Classe, lhe dê atenção e volte a ser a pessoa altruísta que ele era, indo atrás de Magneto, que está preso em pleno Pentágono por motivos excepcionais, e partindo em direção a Mística, numa tentativa de impedi-la. Os acontecimentos são intercalados com cenas do futuro, onde o grupo de mutantes restante se prepara para sua última batalha contra os Sentinelas e reza para que Wolverine consiga alterar os rumos da humanidade.



O filme, como já disse, possui a mesma premissa dos arco nos quadrinhos, mas segue com várias alterações, destacando mais os personagens de Hugh Jackman e Jennifer Lawrence: Wolverine e Mística, respectivamente. Apesar do maior destaque desses dois personagens, Michael Fassbender, como o Magneto mais novo, e James McAvoy, como Xavier mais novo, estão espetaculares e roubam a cena diversas vezes. Somado ao elenco, temos Peter Dinklage, o Tyrion (vulgo "Anão") de Game of Thrones, como Bolivar Trask, e Evan Peters, como o excelente (e dono da melhor cena do filme) Mercúrio, um mutante cujo poder é a supervelocidade.

O filme te mantém atento a todo instante, interligando cenas do passado com o futuro de forma harmoniosa e explicando toda a ciência que ele utiliza de uma forma bem simples e fácil de entender. A ação é fenomenal, incluindo confrontos com os Sentinelas, tanto do futuro, quanto do passado, uma cena absurda (mas eletrizante) envolvendo um estádio de beisebol e uma fuga de prisão. A fotografia é bonita, trabalhando com as cores e os elementos de sombra e luz em muitas cenas que envolvem Xavier. Já a trilha sonora se mantém tímida em alguns pontos para se sobressair em outros.



Dias de um Futuro Esquecido não é apenas mais um filme da longa séries de produções da Fox com os X-Men; ele é, de longe, o melhor deles. Adaptando um dos arcos mais famosos e adorados pelos leitores de quadrinhos, o filme conquista antigos fãs e anima até mesmo aqueles que desconhecem toda a profundidade do universo Marvel. Além de divertir com piadas e entreter com uma boa história e ótimas cenas de ação, Dias consegue, de certa forma, corrigir vários dos erros cronológicos criados com a produção de tantos filmes utilizando os mutantes, que era, até então, o maior problema enfrentado pela Fox com os mutantes.

No final, Dias é um filme excelente, agrandando o público e firmando ainda mais a franquia nos cinemas, sendo liderado por um elenco de peso e um roteiro muito bem elaborado. Como fã, fiquei mais do que satisfeito com o resultado e, agora, espero ansiosamente o próximo filme. Que venha 2016.

A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick



"Às vezes eu venho aqui de noite, mesmo quando não estou cuidando dos relógios, só para olhar para a cidade. Sabe, as máquinas nunca têm peças sobrando. Elas têm o número e o tipo exato de peças que precisam. Então, eu imagino que, se o mundo inteiro é uma grande máquina, eu devo estar aqui por algum motivo. E isso quer dizer que você, também, deve estar aqui por algum motivo. "
A primeira vez que eu ouvi falar de Hugo Cabret faz muito tempo. Naquela época, tinha acabado de criar um Skoob, estava ficando empolgado com todos os livros que me eram desconhecidos, com todo um mundo cheio de histórias para ler. Uma amiga havia o recomendado, mas uma parte de mim sentia uma enorme preguiça de lê-lo (e de procurá-lo) devido ao seu tamanho. Devo dizer que foi uma pena eu não o ter lido antes.

A Invenção de Hugo Cabret pode ser um pequeno tijolo (qualquer coisa que possua mais de 500 páginas pode ser considerado um tijolo), mas é dono de uma das leituras mais gostosas e mais rápidas que eu já fiz. Combinando desenhos com história escrita, as mais de 500 páginas (que podem desencorajar as pessoas, como fez comigo, pelo seu volume) passam num piscar de olhos e podem ser lidas tranquilamente numa tarde, trazendo uma história cheia de segredos envolvendo Hugo Cabret e sua "invenção".

Hugo é um órfão morando na estação de trem de Paris em 1931. Desde o incêndio que matou seu pai, ele mora com seu tio, um bêbado, em um quarto secreto dentro da estação, onde ele é responsável pelo funcionamento de todos os relógios da estação. Dependendo de roubos para sobreviver e com o desaparecimento de seu tio, ele anda pela estação através de dutos de ventilação e caminhos secretos, mantendo todos os relógios funcionando corretamente para que o inspetor da estação não descubra que algo aconteceu com seu tio, para que ele não seja mandado para um orfanato e para poder continuar o trabalho deixado por seu pai, um relojoeiro também.

Para isso, Hugo começa a roubar peças do dono de uma loja de brinquedos, se baseando no caderno de seu pai, até que, um dia, o senhor o pega no flagra, recolhe as peças que Hugo tinha roubado e colocado no bolso e o caderno de seu pai. O senhor, chamado Georges, de modo assustado e severo, diz que queimará o caderno e Hugo entra em desespero. O dono da loja de brinquedos o deixa ir e, quando está fechando a loja, vê Hugo se aproximando novamente, o seguindo até sua casa e pedindo o caderno de volta. O senhor não dá ouvidos a ele e entra em sua casa, fechando a porta na cara de Hugo. Em sua tentativa de retomar o caderno para continuar o trabalho de seu pai, Hugo acaba se envolvendo em algo muito maior do que apenas alguns relógios e o conserto da máquina incrível que seu pai havia descoberto e tentado consertar.

A Invenção de Hugo Cabret é um livro incrível que remonta os princípios da história do cinema de maneira surpreendente, usando elementos como zoom e travelling, típicos recursos cinematográficos, em muitos dos desenhos encontrados pelo andamento da história. Os desenhos parecem ser feitos com pedaço de carvão, deixando o livro inteiro apenas no preto e branco, caracterizando ainda mais os elementos cinematográficos daquela época. 

Livro que entrou para minha lista de favoritos pela forma de abordagem, pelo seu fundo histórico e por sua história criada de um jeito que deixa o leitor instigado a continuar lendo para saber todos os segredos dos personagens, Hugo Cabret impressiona pela sua fluidez, pelo seu tamanho e pela alta qualidade em relação ao seu tema. Devidamente, peço desculpas à minha amiga que o indicou a mim, mas que fui deixando para depois e para depois do depois. Foi um erro grotesco e que ninguém deveria cometer.

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson



"- Eu te amo, mas você não sabe do que está falando."

Moonrise Kingdom, um dos raros filmes que não têm seus títulos traduzidos para o português, é um daqueles filmes que nunca me canso de assistir e que nunca perderá a magia, por mais que eu saiba a história, os acontecimentos, as cenas e até mesmo as falas de cor algum dia. Ele conta a história de fuga de Sam Shakusky e Suzy Bishop, crianças de 12 anos, e a busca dos declarados adultos atrás de ambos em uma pequena ilha na costa da Nova Inglaterra durante o ano de 1965.

Sam é um escoteiro do acampamento Ivanhoe, comandado pelo escoteiro chefe Randy Ward. Seus pais morreram há algum tempo e, desde então, ele vem passando de casa em casa em busca de alguma família que o aceite totalmente, coisa que nunca acontece porque ele nunca se encaixa. Os escoteiros que convivem com Sam dizem que ele é esquisito e só por isso já o odeiam. Suzy, por outro lado, é a filha mais velha de quatro crianças de um casal de advogados com um bom grau de poder aquisitivo. Ela é temperamental, perde a cabeça facilmente, e seus pais acham que ela precisa de algum tipo de tratamento. Ela se sente perdida em sua própria família.


Então, numa peça de teatro, os caminhos de Sam e Suzy se encontram e, após uma rápida conversa, Suzy dá para Sam seu endereço. Com isso, eles começam a enviar e receber cartas um do outro, falando de todos seus problemas, de suas vidas, de como se sentem perante as pessoas que acham que eles precisam de alguma ajuda, construindo todo um relacionamento em cima. Sam decide fugir de tudo isso e convida Suzy a se juntar a ele, coisa que ela prontamente aceita. Eles marcam um local de encontro, com dia e horário, e fogem de tudo que os atormentam, em busca de um local só deles, onde possam viver seu romance juvenil sem a presença dos adultos e das outras pessoas que os decepcionam e não os entendem.

Quando os adultos, representados pelo escoteiro chefe Ward, o capitão Sharp e os pais de Suzy, percebem que eles fugiram juntos, começam a procurar por pistas de onde eles poderiam estar, e acabam descobrindo sobre o relacionamento das crianças pelas cartas guardadas de Suzy. O resto, eu deixo para vocês verem.

A fotografia possui um tom de cor maravilhoso, trabalhando com cores mais amenas e, às vezes, apagadas, como o marrom, o amarelo e o verde. Além disso, a maioria das cenas são gravadas sem cortes ou mudanças de perspectiva, trabalhando mais o deslocamento da câmera com os objetos e pessoas em cena que vão aparecendo ou se locomovendo (uma técnica chamada "travelling") do que muitos filmes, o que ajuda em toda a atmosfera mágica e irreal passada pelo longa.


A trilha sonora é boa e combina com o clima do filme e das cenas, com músicas focadas em sinfonias e corais. O elenco é de primeira, com uma das minhas atuações favoritas de Bruce Willis (capitão Sharp), e com nomes como Edward Norton (escoteiro chefe Ward), Bill Murray (Walt, pai de Suzy) e Tilda Swinton (Serviço Social). Jared Gilman e Kara Hayward, respectivamente Sam e Suzy, também merecem elogios pela forma que carregam o filme e dão perspectiva aos seus personagens.

Moonrise é um filme de curta duração que passa num piscar de olhos por ser leve, engraçado e, de certa forma, mágico. A história de amor juvenil de Sam e Suzy, que fogem somente porque se amam e não querem que ninguém atrapalhe seus sentimentos, é fantástica, ainda mais considerando o quão maduros ambos são com apenas 12 anos. Há cenas, até, em que o comportamento das crianças, incluindo os escoteiros que conviviam com Sam, se assemelha a cenas adultas de perseguição, fuga de prisão e rivalidade, o que torna o filme ainda mais divertido de se assistir e um membro da minha lista de filmes favoritos.

(500) Dias Com Ela, de Marc Webb



"Esta é uma história 'garoto conhece garota', mas você precisa saber logo de cara que esta não é uma história de amor."

Descobri o filme por uma coincidência enquanto assistia um dos muitos canais Tele Cine. A propaganda passou, dizendo que passaria o filme certo dia e eu fiquei empolgado pois ele me parecia ser exatamente o tipo de filme que eu gosto. Acabei esquecendo do horário no tal dia marcado e só consegui pegar os últimos 30 minutos do filme. Normalmente, eu nem me daria o luxo de assistir esses 30 minutos; odeio assistir filmes que eu já tenha perdido até mesmo os créditos de abertura, os 5 primeiros minutos. Mas ali estava eu, sentado no sofá, apoiando minhas pernas no outro sofá e assistindo. Eu não troquei de canal. O filme chamou totalmente minha atenção e vi algumas das cenas mais geniais nesses 30 minutos finais. Quando acabou, eu tive uma certeza: eu tinha que assistir o filme por completo, o que eu fiz dias mais tarde. Isso foi em 2011 e hoje eu posso dizer com muita certeza que (500) Dias com Ela (do inglês - muito mais legal - "(500) Days of Summer") é meu filme favorito. Mas o que ele tem de tão especial?

Ele é totalmente diferente das comédias românticas que vemos por aí. Não temos uma história contada de forma linear; a história não-romântica de Tom Hansey, o protagonista, e Summer Finn é contada, com pulos para frente e para trás, num espaço de 500 dias, começando pelo dia 488 e depois voltando ao dia 1, indo pro 290, voltando, seguindo linearmente por mais alguns dias, depois pulando pra frente e depois pra trás e assim vai. Isso dá um suporte incrível aos antagonismos presentes na história.


Tom Hansey é um cara que acredita no amor, no destino e em almas gêmeas. Ele se formou para ser um arquiteto, mas a vida o mandou trabalhar (necessidades) numa empresa que cria cartões. É, cartões, como aqueles que você compra na papelaria e dá pra sua mãe porque não sabe o que dizer. Lá, ele encontra com Summer, garota que não acredita em nada do que Tom acredita, que não quer compromissos sérios, que acabou de se mudar para Los Angeles e está trabalhando como assistente do chefe de ambos. Tom, ao vê-la, acha que não é apenas amor à primeira vista: eles são almas gêmeas. Então começa aquela mesma história de ir atrás, conversar com a garota, ser notado e descobrir qual é a dela. Tom acaba chegando até mesmo na friendzone, mas por pouco tempo (um fim de semana, gente. Esse cara é um guerreiro). Ele e Summer começam a sair. Ele quer amor, quer almas gêmeas se casando e ela já diz, quase de cara, que não quer nada sério. Tom releva e todos sabemos o que surge depois disso.

A história já começa com cenas de "desastre". Tom segurando a mão de Summer (que obviamente está noiva por causa do anel na mão), Tom conhecendo Summer, Tom quebrando pratos porque ela terminou com ele, Tom ficando abobado porque ela gosta da mesma banda que ele (The Smiths!), Tom se dando bem, Tom se dando mal, e assim vai se armando o antagonismo das cenas até a reta final que segue de forma linear até o dia 500. Gostaria de dizer mais sobre a história, até, mas eu com certeza estragaria o melhor.

Fora todo o desenvolvimento, o filme possui uma fotografia que trabalha com a dimensão da tela e das cores de forma majestosa. Há cenas em que a tela está 3:4, proporção de tela quadrada (como das televisões antigas) e com margens que lembram filmes antigos. Há cenas que a tela se divide em duas, mostrando em um canto as Expectativas e no outro a Realidade (melhor cena do filme exatamente por isso). E a cor é bem utilizada: todas as cenas com Summer tem um foco em azul, de forma que realça seus olhos, e as cenas com Tom são fechadas no bege, marrom, creme e preto, completando ainda mais a personalidade de ambos com as cores.


A trilha sonora é, por falta de palavras melhores, fantástica. Uma das minhas trilhas favoritas, e, com certeza, uma das melhores, talvez só empatando com o trabalho da banda canadense Arcade Fire em Her e com a Awesome Mix Vol. 1, trilha sonora de Guardiões da Galáxia. A trilha de (500) Dias com Ela se concentra por completo no indie, não importando de quando era o indie. Bandas como The Temper Trap, Mumm-Ra e Wolfmother participam da lista com outros nomes como Regina Spektor e The Smiths e formam uma lista com altos e baixos que se encaixam muitíssimo bem durante as cenas que aparecem, se tornando um aspecto importantíssimo no filme e nivelando as emoções do espectador juntamente com os acontecimentos da história.

Além de tudo isso, (500) Dias faz referência a outros filmes famosos. A Primeira Noite de Um Homem é uma peça fundamental para o emocional de Tom, e, mais tarde, são feitas referências a dois filmes famosos de Ingmar Bergman: O Sétimo Selo e Persona. Difícil não gostar de um filme assim.

Como já disse no começo, esse filme, se não for meu favorito de verdade, com certeza está na minha lista de favoritos, então sou um pouco suspeito para elogiá-lo e parecer um puxa-saco, mas reúna todos os elementos que eu falei: a fotografia, a música, as referências. Junte tudo isso com uma história que vai muito além do clichê hollywoodiano em que o cara fica com a garota no final, apesar de todas as adversidades. Em (500) Dias, o cara fica com a garota por um tempo, não dá certo, não era pra ser, ela termina com ele e já dizem tudo isso logo nos primeiros minutos de filme. Isso torna o filme mais real, como se pudesse ter acontecido com um amigo meu ou até mesmo comigo.

(500) Dias com Ela é um filme diferente com uma história que parece muito real, que corta teu coração e que, no final, mostra que até os maiores desastres possuem algo de bom. É um filme sensível, com várias piadas e que reproduz, de forma engraçada ou verossímil, os acontecimentos de um relacionamento que começa relativamente bem e que vai apresentando vários problemas, principalmente de entendimento, no meio do caminho. Tudo isso torna-o um longa necessário para qualquer um que está atrás de coisas diferentes e que tem um tempinho de sobra. Vale a pena, disso eu lhe garanto.

Lugar Nenhum, de Neil Gaiman



"- Desculpe - disse para o segurança aturdido, enquanto se soltava, e fugiu. - Entrei na Londres errada."

Essa frase define bem o tom de Lugar Nenhum (do original, em inglês, "Neverwhere"), livro que segue o contrário do padrão das adaptações: ele foi lançado depois de terem concluído a série de televisão de mesmo nome. Ainda, de forma irônica, o livro é consideravelmente mais famoso do que a série, que ficou praticamente restringida ao território do Reino Unido e a fãs da história e do autor.

O livro conta a história de Richard Mayhew, escocês que foi para Londres devido a uma oportunidade de emprego. Lá, ele acabou ficando noivo de Jessica Bartram (um pouco controladora, diga-se de passagem) e prosseguiu com sua vidinha monótona até que, um dia, indo a um jantar com sua noiva, eles se deparam com uma menina ensanguentada no meio da calçada. Jessica diz para irem logo, porque já estão atrasados, e que outra pessoa passaria por ali e ajudaria a garota, mas Richard resolve que precisa ajudá-la. Ele tenta levá-la ao hospital, mas a garota diz que não, ele não pode levá-la ao hospital. Jessica começa a fazer ameaças, dizendo que acabaria com o noivado deles se não deixasse a desconhecida lá. Richard levanta a garota nos braços, dá as costas à noiva e vai andando de volta ao apartamento.

O que ele não sabe é que a garota se chama Door ("Porta", em inglês) e há dois assassinos/ladrões/torturadores que estavam atrás dela, tentando capturá-la. Quando Richard aparece e a salva, ela tinha acabado de se deparar com os dois e conseguido fugir, usando seu dom de abrir coisas (agora o nome dela faz sentido, não é?) e pedindo por ajuda. A porta que ela abre, do nada, a leva diretamente a Richard, como se fosse algo do destino.

No apartamento, Richard tenta ajudá-la sem saber o que está prestes a acontecer a ele. Depois de fazer algumas coisas à ela, como sair a procura de um marquês, sem perguntar por que, Door vai embora com seu amigo, o Marquês de Carabas, e pede desculpa ao sair. É aqui que tudo muda: Richard parece não existir mais. Depois de seu contato com Door e tudo que a envolve, Richard parece não existir para ninguém. Ele tenta um táxi e ninguém para; quando um está prestes a atropelá-lo, ele faz uma curva, para evitá-lo, e continua no seu caminho. No seu emprego, ninguém o vê, ninguém o percebe. Sua mesa está sendo tirada do escritório. Ele tenta falar com a noiva, pedir desculpas, e ela, enxergando-o com muita dificuldade, não sabe quem é ele. Richard se vê desesperado e tenta ir atrás de Door para, finalmente, descobrir que existem duas Londres: a de Cima e a de Baixo; a de Cima sendo a sua monótona e cinza Londres e a de Baixo uma Londres mágica, perdida no tempo. Ao se deparar com Door na calçada, ele trocou de Londres, podendo nunca mais voltar para sua vida normal. Ele vai atrás daquela que mudou sua vida por completo e, então, a aventura realmente começa.

Com toques de humor e ironia, clássicos de Gaiman e outros autores ingleses, Lugar Nenhum é uma história fantástica, tanto pela sua nuance mágica quanto por sua qualidade. Os personagens, mesmo que não sejam todos carismáticos, são brilhantes por si próprios e prometem surpreender com suas decisões através do desenvolvimento do livro, até chegar ao último capítulo com sua brilhante conclusão. Richard é covarde, mas possui tanto de Arthur Dent (personagens de O Guia do Mochileiro das Galáxias), ainda mais no começo da história, que é difícil não gostar dele com o passar das páginas; Door, com seu Dom e sua busca para saber quem matou sua família e por que; De Carabas, arrogante e convencido, mas brilhante; Hunter, a guarda costas; Sr. Croup e Sr. Vandemar, os vilões; e muitos outros personagens que garantem o sucesso do livro.

Lugar Nenhum é construído pouco a pouco com uma história, apesar de mágica e louca, verossímil, maior qualidade de Neil Gaiman ao contar suas histórias. É um livro curto, com menos de 350 páginas, e garante boas horas de divertimento e de curiosidade enquanto explora o cenário de Londres de Cima e de Baixo, de maneira fabulosa, fazendo-nos acreditar que existe tudo aquilo na vida real. Seu final, digno de palmas por não ser apenas mais um final, mas um convite a pensar muito além, conclui o romance de maneira fantástica, garantindo o livro a minha lista de recomendados.

O Vento Pela Fechadura, de Stephen King









"O tempo é um buraco de fechadura"
A Torre Negra vive em mim desde 2010, quando descobri a série e tentei lê-la mesmo não sendo fácil conseguir os livros. A história me conquistou completamente no Vol. I. Fez-me acreditar que a paixão é algo intenso e fora do comum no Vol. IV. A história me chocou completamente no Vol. VII e assim pôde viver eternamente em mim. Mas, e este volume desgarrado, lançado quase uma década após o último volume? Como ele iria se comportar quando eu o lesse, 2 anos após ter terminado a série? Essa pergunta ficou comigo até o dia que eu o peguei na mão e percebi que seu elemento chave seria a nostalgia e tudo fluiria a partir dela.

É mágico ver o ka-tet de Roland novamente, apesar dele nem ser o foco do livro. Ver o Eddie brincalhão, a Susannah tendo seus ataques de nervoso (invocando a Detta), o Jake sendo um menino que ouve histórias e o Oi sendo Oi. A nostalgia foi imediata, mas não foi o único sentimento que eu pude sentir.

O livro é como Inception, só que em vez de sonhos, temos uma história dentro de uma história dentro de uma história. Há uma tempestade forte no caminho do ka-tet, e eles param e esperam a tempestade, chamada borrasca, passar. Enquanto esperam, Roland conta uma aventura sua de quando era jovem, um evento logo após os relatos de Mago e Vidro. Nessa história, que se chama Trocapele, é possível sentir outra nostalgia: a nostalgia de ver Roland jovem, ainda com suas aventuras, antes de perder notavelmente tudo. Enquanto conta essa história, Roland inicia um conto que marcou sua infância, chamado de O Vento Pela Fechadura.

O conto se mostra a parte mais importante do livro e carrega uma emoção pura de infância, que lembra especiais de natal na televisão, o amor incondicional de nossos pais por nós, O Mágico de Oz e histórias de cavaleiros. O Vento Pela Fechadura (conto), mesmo não tendo nenhum personagem do ka-tet de Roland, é o que mais vale a pena do livro porque ele tem uma interligação fantástica com a série em si e possui um sentimentalismo de despertar lágrimas. Esse é o jeito de King dizer: eu ainda posso surpreender vocês, meus caros, e posso fazer o coração de vocês sangrar.

Depois de todos os contos, voltamos com o ka-tet e vemos o que talvez seja o trecho mais triste de toda a série. Roland mostra um outro lado dele neste livro e, ao chegar ao seu final, entendemos um pouco mais sobre ele.

O Vento Pela Fechadura (livro) é um volume diferenciado de A Torre Negra, mas é tão bom quanto qualquer um deles. É dito que é possível lê-lo sem ter lido os quatro livros anteriores (já que este seria o Vol. 4,5, de acordo com o autor), mas ele possui vários acontecimentos passados, acontecimentos do final do Vol. IV, que podem prejudicar um pouco a leitura de quem ainda não leu a série. Mas é uma questão de conta e risco e nada impede alguém de fazê-lo.

O livro me fez sentir nostalgia, amor, raiva, ódio e pena. Percebi ao lê-lo que o amor que temos por outras pessoas pode ser intenso, mas nunca eterno, como o amor paternal/maternal. Eu li, ri, chorei. O livro é A Torre Negra. O livro é Stephen King. É tudo isso junto, misturado, e que forma um dos mosaicos mais belos que já vi. O Vento Pela Fechadura é assim, sai: maravilhoso. E eu agradeço.

Eleanor & Park, de Rainbow Rowell

Já tinha ouvido falar sobre Eleanor & Park antes de comprá-lo. Acho que fazia uma semana desde que eu havia visto uma lista com os ditos 40 melhores livros Young Adult (YA), e Eleanor & Park estava no meio. Não lembro a posição exata e nem lembro o que eu achei na hora; lia o site pelo celular e mais estava preocupado em saber se algum livro que eu gostava estava na lista do que procurava por novos livros que me impressionassem. Mas, na semana seguinte, estava no centro da cidade e me acabei entrando na livraria em busca de alguma coisa diferente, qualquer coisa que eu não soubesse nada sobre, e acabei me deparando com este livro. O que me fez pegá-lo não foram as palavras de John Green na capa, nem nenhuma das outras frases atrás (ou até mesmo o logotipo do Omelete, rs). Eu o peguei porque 1) os desenhos da capa me lembraram uma música; 2) a guria, a tal da Eleanor, era ruiva; 3) não tinha informação alguma sobre o que se travava de verdade a história na contra capa; 4) estava de bobeira; e 5) parecia que o livro tinha acabado de chegar lá na livraria. Então, pensei comigo "por que não?". Paguei e saí feliz.

O livro, como já falei, é YA, ou seja, uma literatura dedicada aos "jovens adultos", aos adolescentes com seus mais de 15 anos e para os adultos com seus vinte e pouco, geralmente tratando de personagens mais complexos e situações (bem) mais adultas do que aquelas em livros infanto juvenis. Eleanor & Park não sai disso.

Você tem a menina, Eleanor, filha mais velha entre cinco irmãos, ruiva, gordinha, com pais divorciados e morando com a mãe, que mora com um bêbado e drogado chamado Ritchie. A situação de Eleanor é extremamente complicada; ela é, basicamente, a complexidade da história. O tal do padrasto bate na mãe dela, é controlador com todos, principalmente com ela, além de ser um tremendo filho da puta (expressão totalmente necessária aqui). Ela, os irmãos, a mãe e o padrasto moram todos numa casa só, ridícula de pequena, onde os cinco irmãos dormem no mesmo quarto, onde não há comida o suficiente para todos, onde o banheiro minúsculo nem tem porta, onde liberdade é apenas uma palavra. Eleanor não tem roupas decentes para vestir, então utiliza roupas velhas e rasgadas, de maneira excêntrica, ligando os holofotes em qualquer lugar que passe. Fora tudo isso, ela ainda é zoada diariamente na escola devido à aparência física. Vida perfeita.

Na contramão, você tem Park, mestiço de coreano, baixinho, que faz taekwondo, tentando tirar sua carteira de habilitação e vivendo com seus pais e seu irmão mais novo, que é mais alto que ele. Ele lê quadrinhos (X-men! Watchmen!), ouve músicas (The Smiths! New Order!) e se satisfaz em sentar no banco do ônibus sozinho.

A história desses dois começa no primeiro dia de aula da Eleanor, onde ela entra no ônibus que vai para a escola e não há lugares para ela se sentar (afinal, todos já escolheram seus lugares e praticamente escreveram seus nomes neles), o que a faz se sentar do lado de Park, que dividia um banco pra dois com ele e ele mesmo. A primeira impressão que cada um tem do outro é negativa. Eleanor considerada Park grosseiro e Park nem quer ser visto falando com ela. Mas, com o tempo, eles acabam encontrando um meio de se comunicaram com o silêncio. Park leva quadrinhos para o ônibus e Eleanor vai lendo com ele. Depois ele deixa que ela leve-os para a casa dela e começa a emprestar fitas para ela ouvir (não disse que se passava no grande ano de 1986, né?). E assim vai nascendo esse relacionamento tão estranho entre os dois, na qual ambos têm vergonha de falar um com o outro, ainda mais em público, e seus contatos são apenas as músicas, as histórias e seus significados, até que um dia se toquem e percebam que suas primeiras impressões estavam erradas.

Eleanor & Park é um livro agradável de ler e que vai, lentamente, construindo o relacionamento dos dois, sem pressa alguma. A contra capa, se você chegar a ler, acaba dando um pequeno spoiler de como a história vai acabar: se bem ou mal, com eles juntos ou separados; mas nada que estrague por completo o andamento do livro ou que faça você jogar o livro na estante e pegá-lo 20 anos depois. Eleanor é uma personagem cativante, com um verdadeiro labirinto na cabeça. Park não cativa tanto quanto Eleanor no começo, mas a mudança que ele vai tendo em relação ao próprio comportamento e ao que ele quer de verdade o torna mais agradável conforme o andamento do livro.

Em suma, Eleanor & Park é uma história legal entre dois jovens com absolutamente nada a ver um com o outro, com alguns momentos de riso, nenhum momento de choro (eu pelo menos não derramei uma lágrima, me perdoem. Só fiquei puto com o tal do padrasto) e um desenvolvimento, tanto da história quanto dos personagens, muito bom. O peguei de maneira muito aleatória na livraria; não me arrependo, mas ele acabou não sendo aquele livro que eu esperava que fosse ou que eu queria ler de fato. Para quem estiver interessado em livros young adult e que não tenha mais nada para ler, é uma boa opção para passar o fim de semana ou alguns dias lendo, já que dá para lê-lo bem rápido.

Ah! A música! A música que me fez comprar o livro é a conhecidíssima Young Folks, do Peter Björn and John. O interessante é que, se você pegar a letra e os pensamentos de Eleanor, há inúmeras semelhanças.

"If you knew my story word for word
Had all of my history
Would you go along with someone like me"
 

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