Por que Frodo?

Li Senhor dos Anéis quando tinha 11 anos. Embora pareça ser pouca idade para entendimento da complexidade da obra, me esforcei para tentar e acho que fui bem sucedido. Nunca cheguei a ler novamente, embora tenha assistido aos filmes inúmeras vezes. E após tantos contatos com a obra de Tolkien, uma dúvida sempre me deixava curioso. Na época em que eu era acostumado a ler histórias sobre o Rei Arthur ou outros contos sobre uma infinita diversidade de heróis, foi normal me questionar: Por que Frodo?


No começo de Senhor dos Anéis somos introduzidos a dois personagens principais da trama e bem opostos: Frodo e Aragorn. Aragorn é, a princípio, o oposto exato de Frodo. É discreto em suas aparições e viaja sempre se preocupando com sua segurança, vide que primeiramente o conhecemos através de “Passolargo”. Frodo é um tanto fora dessa descrição. Tem problema para seguir a mais simples das instruções dadas: viaje fora da estrada. Isso sem mencionar o fato de por o anel quando a estalagem é invadida, se denunciando.

Hobbits são descritos como criaturas alegres, barulhentas e simpáticas e, mesmo para esse padrão, Frodo não se destaca. Não é alegre como Merrin, barulhento como Pippin ou simpático como Sam. Na verdade ele se parece muito mais com seu tio Bilbo, um “bookworm”¹. Frodo nem sequer resistiu a primeira tentação de usar o anel, ao passo que Aragorn é um líder em batalha, um guerreiro reconhecido e bem mais esperto. Basta observar sua trajetória pela história até então. Por que então, dadas essas duas opções, é Frodo quem tem a missão de levar o anel?

A resposta parece ser mais simples do que é: porque Tolkien quis. Calma, não precisa fechar a aba. Eu explico. Tolkien é um autor fora dos padrões. Se ainda é considerado assim hoje, imagina na década de 50! Ele consciente e propositalmente, confere a Aragorn todas as características de herói e ainda implementa características de histórias já conhecidas a fim de reafirmar a posição dele como líder natural e “melhor escolha”. Por exemplo, Aragorn pode curar doenças fazendo o uso de plantas medicinais como o lendário Rei Carlos Magno. Outros pontos são sua filiação desconhecida até o momento propício como nas histórias do Rei Arthur. Ou mesmo na bíblica de Moisés. Até a espada quebrada sendo reforjada para conferir poder a ele vem de uma lenda: Sigurd. Mas ainda permanece o “Por quê?” no fundo da mente. Ok, seguimos...

Tolkien quis, através da escolha improvável, mostrar que há outras características que fazem alguém grande além de tamanho ou força. No percurso até o objetivo, Frodo descobre em si qualidades que não conhecia até agora. Frodo é corajoso e paciente. É forte. Determinado. Para Tolkien, o processo de enobrecimento e construção do herói é muito mais importante que os atos heroicos em si, tanto que ao fim de Senhor dos Anéis nos sentimos como o quinto elemento no grupo dos quatro hobbits que deixaram o condado. Conseguimos lembrar, saudosamente até, tudo que ocorreu até então e se torna possível atribuir cada qualidade conquistada a um momento especifico. Esse processo de transformar patinho feio em ganso ocorre diversas vezes na obra, algumas nem se percebe. Ao final também são conferidos como heróis Sam, o leal amigo que nunca o abandonou mesmo tendo sido abandonado, e mesmo os brincalhões Merrin e Pippin acabaram sendo indispensáveis.

Então, já que o processo da criação do caráter do herói era mais importante que o heroísmo em si, fica claro a preferência de Tolkien por Frodo, e não Aragorn, para carregar o anel. Acredito que Senhor dos Anéis não teria sido uma história tão grandiosa se a missão de destruir Sauron fosse confiada ao Passolargo, mas isso é algo que nunca saberemos e nem nos fará falta. Não saberia dizer ao certo qual é a condição que faz de alguém um herói, mas sei que Tolkien sabia como indica-las e ficou claro ao fim dessa jornada que, dos quatro hobbits que saíram de seus buracos no chão, se fez muito mais que 4 heróis.

5 comentários:

  1. Ainda não tive a oportunidade de ler os livros da saga, até porque, quando vou comprar, já não está mais disponível. Ainda não encaro Frodo como o o herói, ach oque se não fosse o Sam, ele não teria feito 1/3 do caminho. Talvez quando eu ler, eu mude essa visão.

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    1. Sim, concordo com o fato do Sam ter sido indispensável, mas Frodo tem seu mérito também! Espero que consiga comprar os livros, são mesmo meio difíceis de conseguir.

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  2. E é por isso que ele é reconhecido como um mestre, saber explorar características tão especiais e, ao mesmo tempo, ocultas de um personagem fazem dele um autor muito especial, é quase como se ele tivesse vivido essa história, conhecido um Frodo

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  3. Gostei do seu texto, mas se me permite uma observação, Frodo nunca abandonou Sam. Jamais faria isso. Pena que tenha sido inventada essa cena no filme, bem como outras que distorcem quem foi e o que fez Frodo na história. Embora os filmes sejam muito bons quanto às imagens da Terra Média e mostrem uma parte do conteúdo original, trata-se de uma adaptação que, acrescentando fatos indevidamente e suprimindo outros essenciais para o entendimento da obra de Tolkien, acaba por deformar a essência da mensagem. É o que acontece com Frodo, pois no filme muito se perdeu das características do grande herói que é, sem dúvidas, cuja coragem, generosidade e nobreza de caráter se evidenciam em cada ato.

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    1. Oi, Helena. Sim, sua observação é absolutamente válida, mas eu tentei unir as duas obras - filme e livro - para que todo mundo conseguisse acompanhar o texto. Tipo, uma pessoa que não leu os livros, mas assistiu aos filmes, conseguiria acompanhar o que quis dizer. Concordo muito com o que disse sobre a personalidade do Frodo no filme não ser tão grandiosa quanto nos livros, mas fazer o que, né?! Obrigado pelo seu comentário! Espero que tenha curtido o texto.

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