Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez


Muitos anos depois, em seu leito de morte, o escritor Gabriel García Márquez havia de recordar aquela tarde remota em que deu início à história de Macondo. Talvez ainda a sem consciência de estar escrevendo não apenas sobre uma vila fictícia, mas sobre toda a América Latina, e não apenas sobre a família Buendía, mas sobre todas as famílias. E mais, sem a consciência de estar escrevendo um dos maiores romances de sua época. Cem Anos de Solidão é tão grande quanto a extensão da América Latina, mas não se engane, não falo de quantidade de páginas, mas de história pura e pulsante. Falo de pessoas, famílias, guerras, ideais, amor, ódio, sexo, egoísmo, orgulho, reviravoltas, loucura, mas também de fantasia. Uma história cuja engenharia interna é secreta, quase invisível. Nem mesmo o mais concentrado dos leitores conseguirá se manter atento aos cordões que a movem; se perderá logo nas primeiras linhas aos delírios mágicos de Macondo, mas não se engane, a magia de Cem Anos de Solidão é puro realce da realidade.

Muitos anos depois, em qualquer tarde ensolarada, você haverá de recordar, com um gostinho de nostalgia, do dia em que lera sobre os Buendía. Uma família de muitas famílias, que veio de uma terra distante em busca do mar, mas acabou perdida no meio do mato, e, sem intenção de voltar para a terra natal, fundou ali mesmo a apoteótica vila Macondo. Se lembrará de ter acompanhado a louca história de Úrsula e José Arcadio Buendía, e também de seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, tatatatara... Durante cem anos, tornamo-nos íntimos de cada Buendía, vemos a peste da insônia atacar suas mentes, a loucura (ou a lucidez) de José Arcadio Buendía, a fervorosa guerrilha e decadência do coronel Aureliano, a amargura de Amaranta, a gloriosa beleza de Remédios Moscote (e de Remédios, a Bela); sentimos a umidade penetrante dos quatro anos, onze meses e dois dias de chuva constante, ouvimos a risada escandalosa de Pilar Ternara, o fogo pecaminoso de Petra Cotes que se deitara com os gêmeos Aureliano Segundo e José Arcádio Segundo, achando que eram o mesmo homem; em qualquer tarde ensolarada, você haverá de recordar, com espanto e maravilha, dos ciganos e seus prodígios, de suas invenções, de seus tapetes voadores, de Melquíades, que morreu de febre nas dunas de Cingapura, e seus reveladores pergaminhos. Durante cem anos vivemos suas tristezas e felicidades, mas, principalmente, suas solidões. Pois sim, parece uma praga, todo Buendía está destinado à solidão, como uma doença genética incurável que vem sorrateira, que pega de surpresa, mas é infalível e fatal. E deles sobram só a alma. A alma da América Latina. Uma alma marcada de guerras, mandos e desmandos, de conquistas e reconquistas, de ditaduras e democracias, de sangue inocente. De virulenta paixão e nociva frieza, uma terra louca. E solitária.

Muitos anos depois, numa manhã chuvosa, você haverá de sentir uma saudade de Macondo, pois, sem querer nem pedir a Deus, nasceu com o sangue da solidão. E lerá novamente esse romance e sentirá novamente o mesmo espanto, a mesma alegria, o mesmo ódio, o mesmo amor, o mesmo repúdio, a mesma solidão. Pois eu mesmo já li este romance três vezes e meia, reli incontáveis vezes certas passagens, e em cada leitura choro seus lutos com a mesma intensidade que Úrsula, sinto o mesmo amor ensandecido que Rebeca e Amaranta sentiram por Pietro Crespi, mas sempre ao final da experiencia, sinto-me vazio, solitário como coronel Aureliano. Quando não aguento mais segurar, volto a lê-lo com a mesma ferocidade que Rebeca ao comer terra. E vivo assim, indo e vindo. Como Úrsula mesmo chegou a concluir: o tempo não passa e, sim, dá voltas redondas.

Muitos anos depois, em seu leito de morte, Gabriel García Márques havia de se recordar que numa busca sem tréguas para entender a si mesmo e sua terra, acabou contando a história de todo mundo de uma vez só. Descobriu que a grande família dessa terra latina tem um único sobrenome: Buendía. Que nesta terra de amores, se mata e morre sem ver. Que nesta terra de solidão, a esperança é sempre a última que morre. Que nesta terra de espelhos impossível de escapar, está cheia de Úrsulas, Josés Arcádios, Aurelianos e Amarantas. Que nesta terra é sempre março e sempre segunda-feira, e que o tempo não passa e, sim, dá voltas redondas.

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