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Vincent: a história de Vincent Van Gogh, Barbara Stok


Este livro foi uma cortesia da editora L&PM

Quem não conhece Vincent Van Gogh que atire a primeira pedra. O pintor excêntrico, um dos poucos a se dedicar inteiramente à criação, tornou-se um ícone artístico e suas matizes são conhecidas por todo o mundo. Por isso, tornou-se um dos artistas mais importantes do mundo. Isso poderia ser um exagero da minha parte, mas tenho certeza que não. Você pode não saber muito sobre a vida dele, a época exata em que viveu e outras coisas, mas certamente já viu pelo menos algum de seus muitíssimos quadros. Diante disso, tive o prazer de descobrir a incrível HQ feita por Barbara Stok, que mostrou-me uma visão diferente sobre Vincent Van Gogh.

O Perfuraneve, Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette

Um trem com seus mil e um vagões percorre a Terra sem parar. O planeta agora é dominado pelo frio. A Terra, que outrora abrigava grande quantidade de vida, está coberta pela neve. A raça humana, entretanto, resiste. Num gigantesco trem está confinado o que restou dela. Nessa locomotiva está o último lampejo da humanidade.

O nome desse trem salvador é Perfuraneve. Tudo o que restou de vida no planeta está dentro dele. Na imagem, é possível vê-lo desbravar a neve enquanto carrega consigo a esperança. Uma suposta esperança, é claro. Nesse microcosmo que é a locomotiva dos mil e um vagões, todas as imperfeições humanas resistem. Pior ainda, afloram ainda maiores. Nesse trem de corredores apertados existem milícias, religiosos, insurgentes, políticos. Todas as organizações que estiveram presentes na maior parte do tempo da nossa civilização. Mas, mais do que isso, existe algo enraizado, que é a constante luta entre oprimidos e opressores. A massa que sofre e a minoria que goza. Embora tudo o que esteja além das paredes da locomotiva seja frio e morte, nesse universo minúsculo que sobrou a luta ainda existe.

Imagens, cores e onomatopeia: entrando no universo das HQs


Há muito que quadrinhos deixaram de ser sinônimos de histórias de heróis com capa e cueca por cima da calça para crianças. Embora para o senso-comum ainda o seja (meu pai que o diga), os quadrinhos evoluíram e elevaram-se à altura da literatura, sendo respeitados, hoje em dia, pelos maiores escritores. Apesar dessa notória evolução e amadurecimento, as histórias de heróis também merecem ser lidas, seja por simples hobby ou como uma fuga.

Apesar de tudo, iniciar nesse universo pode ser um pouco difícil para algumas pessoas, visto que as histórias nos quadrinhos, principalmente considerando as editoras Marvel e DC, existem muito antes da nossa existência, e continuarão existindo para muito depois, sempre sendo reescritas, refeitas, remodeladas, algumas sendo apagadas e desconsideradas, para que algo novo entre. Tendo isso em mente, resolvi escrever um texto para ajudar aqueles leitores que desejam adentrar nesse mundo que mistura as palavras, imagens e cores, e que é tida por alguns como a 9ª arte.

True Detective (1ª temporada), Pizzolatto e Fukunaga

 
"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." (NIETZSCHE, Além do Bem e do Mal, p. 89)
Das lúgubres paisagens da Louisiana, surgem assassinatos com um grande tom ritualístico. Tudo indica a ação de um assassino em série, mas logo os boatos de crimes com cunho anti-cristão se espalham pela população criando comoção geral. Por todos os lados surgem pistas, mas estas são desconexas e abstrusas. No meio desse redemoinho estão dois homens. Dois homens muito diferentes, mas que, para fins práticos, terão que aprender a conviver. A relação nunca será das melhores, mas terá que ser assim, e, enquanto o tempo corre, ambos se verão perdidos em labirintos e sendo assombrados por demônios do passado.

Demolidor (1ª temporada), Drew Goddard


"Não busco penitência pelo que fiz. Peço perdão pelo que vou fazer." (episódio 1)
Enfim, o icônico personagem da Casa das Ideias recebeu uma adaptação digna de toda a sua grandeza. Demolidor, um dos heróis mais maneiros da Marvel, sofreu por anos pela sombra da infeliz adaptação de 2003. Na época, o resultado foi tão ruim que a Fox perdeu a coragem de seguir a diante, os direitos pelo personagem acabaram expirando e ele acabou, consequentemente, voltando para a Marvel. Esse fato foi uma dádiva. Embora as reações da época tenham sido mistas, agora não há dúvidas de que esse destino foi o melhor. E nada melhor pra garantir isso do que uma série incrível feita pela Netflix em parceria com a Marvel. Sem medo (assim como nosso vigilante cego), ouso dizer que Demolidor é a melhor adaptação de um herói para as telas. 

A trama da série segue um nova-iorquino que, ainda criança, perdeu a visão, mas, em compensação, teve um acréscimo gigantesco em seus outros sentidos. Esse homem é Matt Murdock (Charlie Cox), recém-formado advogado que, ao lado do melhor amigo e também advogado Foggy Nelson (Elden Henson), inicia uma firma de advocacia no bairro Cozinha do Inferno, lar de ambos. À procura do primeiro cliente, eles acabam topando com uma garota - Karen Page (Deborah Ann Woll) - que está sendo acusada de assassinato, porém alega ser inocente. Esse cenário é o pontapé inicial do programa.

Eu, Robô, Isaac Asimov



Quem nunca imaginou como seria viver entre robôs? Mais ainda, como viveriam, agiriam, o que pensariam? Nesse pequeno e rápido livro, Asimov tira os robôs da posição de vítimas ou de vilões e os coloca em um lugar mais inteligente, tratando deles com uma abordagem mais racional. Em meio a tantos sentimentos e profundidade concedida pelo autor, as máquinas tornam-se humanos demais e robôs de menos.

O livro é composto por nove contos, tendo como pano de fundo uma entrevista com a psicóloga roboticista Dra. Susan Calvin, no momento com 75 anos. As histórias são contadas por ela e narram o surgimento da robótica, seus primeiros passos até seu consequente desenvolvimento e estabelecimento. Mesmo tratando-se de histórias distintas, o autor cria uma coesão e estabelece uma cronologia para a evolução dos robôs e seu desempenho.

Royal Blood, Royal Blood




No final do ano passado, tive a felicidade e surpresa de me deparar com um álbum musical de extrema qualidade e precisão. Royal Blood, álbum da banda britânica homônima, recoloca o rock sob os holofotes ao apresentar um som genuíno, com riff's pesados e muita personalidade. Entretanto, o que chama a atenção de muitos é o formato da banda: apenas dois componentes, um baixista-cantor e um baterista. O duo formado por Mike Kerr e Ben Thatcher explora várias vertentes do rock em seus fraseados, como blues rock e o hard rock, e possui uma "cara" de banda de garagem - com muita qualidade, claro. Apesar de todas as referências e influência, o resultado final é um rock moderno. Em meio à amalgama de distorções de pedais no baixo, que o deixam mais carregado, e uma bateria muito movimentada, com uma pegada muito grande na caixa, a falta de guitarras ou teclados passa despercebida. Na verdade, a presença qualquer instrumento além do baixo e da bateria, considerados a "cozinha" da música, se faz desnecessária.

Antes do Pôr do Sol, Richard Linklater




"...todo mundo quer acreditar no amor. Vende bem."

Nove anos se passaram desde o primeiro encontro. Celine e Jesse já não são mais tão jovens e também não demonstram estar perdidos como em 1995. Jesse é agora um escritor famoso; Celine, uma ativista ambiental. Após cruzar várias cidades em turnê para o seu livro, Jesse encontra-se dando uma entrevista para jornalistas na conhecida livraria Shakespeare and Company, que fica em Paris. Enquanto fala sobre uma ideia sua para um próximo livro, olha pro lado e avista Celine. Assim inicia o segundo passo da saga amorosa de Richard Linklater.


Quanta coisa pode acontecer em 9 anos? Provavelmente muita. Jesse casou e escreveu um livro sobre a sua noite ao lado de Celine, o que, segundo o próprio personagem diz, foi uma maneira de não deixar a história se perder. Celine formou-se em Ciências Políticas e namora um fotógrafo que raramente vê. Entretanto, sob o manto das realizações, escondem-se os verdadeiros Jesse e Celine. Aqueles que já conhecemos um pouco do primeiro filme, mas que ainda têm muito a revelar.



Entretanto, os minutos se passam e começamos a descobrir a verdade a partir da boca dos personagens. A verdade é que a única coisa que ainda mantém Jesse casado é o seu filho, uma das poucas felicidades da vida dele, já que a relação com a esposa é péssima. O fato de ter se casado foi apenas para criar uma ideia de estabilidade em sua vida, mesmo que esse ideal nunca tenha acontecido realmente. Já Celine namora com um homem que raramente vê, e isso diz muito sobre ela. Uma mulher que, talvez inconscientemente, optou por uma pessoa ausente para fingir uma relação, mas que não lhe satisfaz. Apesar de tudo, esse segundo filme não é sobre o que aconteceu, mas sim sobre como poderia ter sido.

Nessa nova etapa da jornada desse improvável casal, todo o onirismo do filme anterior se dissipa. Talvez pela situação em que se encontram, ou como consequência do tempo. Sem aquele arrebatamento do primeiro filme, os dois caminham pelas ruas de Paris, discutindo assuntos mais maduros. Por outro lado, o anseio por discussões continua, e os diálogos contidos no filme são ainda melhores que os de Antes do Amanhecer. Seja sentados no Le Pure Café ou caminhando pelo parque Promenade Plantée, eles conversam. A carga filosófica continua a mesma — até mais densa —, mas desta vez eles deixam um pouco de lado os assuntos mais metafísicos e focam mais na sociedade, no homem e em si mesmos. De certa forma, isso indica um amadurecimento dos personagens, que resolvem se dedicar a assuntos mais tangíveis da vida.

Antes do Pôr do Sol é um filme com uma estrutura completamente simples. Foi todo editado para fazer com que o tempo do filme equivalesse a um entardecer de verdade. Apesar da trama do filme percorrer um espaço de tempo muito menor que o filme anterior, esse é ainda muito mais intenso. Os diálogos são mais complexos e maduros, deixando boas reflexões para quem assiste. Obviamente, não poderia deixar de citar aqui o entrosamento dos atores que está ainda maior no longa. O que parece é que o diretor filmou escondido a dupla de atores durante uma longa conversa. Não seria pra menos, já que o roteiro é assinado pelo diretor Richard Linklater e pela dupla de atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, que, a título de curiosidade, se corresponderam por e-mail, telefone e, em algumas vezes, pessoalmente.

Em meio a uma entrevista, um passeio e uma valsa, Antes do Pôr do Sol se desenrola. Mais maduro e pé no chão que o anterior, o segundo encontro de Jesse e Celine é uma revisita aos fantasmas do passado, um toque na ferida. Sem sequer um beijo entre os personagens durante o filme, a continuação de Antes do Amanhecer é um ensaio sobre as relações humanas, e também mostra que os rumos da vida muitas vezes são diferente daquilo que idealizamos, assim como é uma prova da ação do tempo em nossas vidas. De um filme tão bom como esse, talvez o único defeito seja durar tão pouco. 


"Quem sabe a gente só se dá bem em breves encontros, perambulando por cidades europeias quando faz calor."


2001: Uma Odisseia no Espaço, Clarke e Kubrick


Em meio a ambientes inóspitos, bandos de homens-macacos disputam os melhores locais e tentam lidar com as intempéries do seu habitat. Entretanto, o surgimento de um estranho objeto (claramente extra-terrestre) influencia, como podemos presumir, no destino dos homens primitivos. A presença desconhecida do monólito escuro estimula nos animais alguns raciocínios e contribui para a evolução do homem.

Antes do Amanhecer, Richard Linklater





Dois jovens perdidos tentando se encontrar. No meio do caminho, topam um com o outro. Conforme caminham, cada um procura vencer suas incertezas, ou pelo menos conviver melhor com elas. Num trem que cruza a Europa estão os jovens Jesse e Celine e, ironicamente, é uma briga que acaba por uni-los.

Celine é uma garota francesa, e Jesse, um americano. No meio de uma viagem, eles se conhecem e começam a conversar. No dia seguinte, ambos voltarão para seus países de origem. Mas entre um dia e outro está a aventura amorosa deles. Nesse curto espaço de tempo está uma relação incomum, diferente. Uma relação que é a mistura de anseios juvenis que transmitem o "carpe diem" e preocupações com o futuro além daquele pequeno encontro. Assim então, num ímpeto de coragem, eles saltam do trem para passar um dia em Viena.
"...acho que a gente tem uma espécie de conexão."
Jesse é um rapaz que, apesar da máscara que o faz parecer insensível e cético sobre o amor, espera realmente encontrar alguém especial, mas sem todas as consequências que isso implica. Celine é uma garota criada por pais que vivenciaram o Maio de 68, e isso refletiu na sua educação e, consequentemente, em quem ela viria a se tornar. Independente, ela, assim como Jesse, possui fortes críticas ao padrão de relacionamento que ambos julgam insosso. Não se sabe se foram unidos pelo destino, por Deus ou até por uma coincidência. Isso não importa. O que importa é que estão ali e irão viver aquele momento, discutir o que poderá ser do futuro, mas, em primeiro lugar, aproveitar o momento.

O casal (se é que pode ser chamado assim) que está passeando por Viena não quer a promessa de uma relação duradoura, com direito a uma casa própria e dois filhos. Eles não querem cair na mesmice quase sempre presente em relacionamentos mais avançados. Eles nem teriam tempo para tanto, pois em algumas horas o castelo de cartas construído por eles irá desmoronar e precisarão voltar para seus lugares. Mas esse dia dá a eles a dimensão de uma vida. É o infinito dentro de um segundo. Assim como no poema escrito pelo mendigo vienense, Celine e Jesse são conduzidos pela vida como objetos sendo carregados rio abaixo. Nessa pequena jornada, um levará ao outro, e é exatamente essa troca igualitária que ambos procuram.

Não é possível considerar esse filme como romântico, tampouco como realista. A verdade é que ele está ali no meio, e oscila entre esses dois extremos. Ou, corrigindo a mim mesmo, o filme mostra que romantismo e realismo não são tão opostos assim. A premissa do filme é sobre a aventura de Celine e Jesse por algumas horas em Viena, e toda a história é uma grande conversa. Eles conversam sobre vida, morte, Deus e, principalmente, amor, e o que não é dito acaba por ser representado.

Os protagonistas Ethan Hawke e Julie Delpy possuem um entrosamento incrível, que traz leveza e naturalidade à história. Os olhares tímidos trocados entre o casal, os toques modestos e tudo o mais contribui para esse realismo. Com tanta intimidade, a câmera é quase como uma intrusa na história, e até parece a concretização da ideia maluca de Jesse de criar um reality show em que uma pessoa normal é acompanhada em suas atividades diárias. Através da conversação, um apreço vai sendo formado. No alto de uma roda-gigante, enquanto o sol se põe, surge o momento oportuno para o primeiro beijo. Mas não existe trilha-sonora, nem uma delicadeza maior no enquadramento da câmera. O primeiro beijo deles está ali de forma crua, assim como os sentimentos, e o diretor nos faz senti-los também sem o incentivo de uma música romântica.

Antes do Amanhecer é a síntese dos sentimentos humanos, desde a paixão no sentido mais puro até as incertezas e medos. Em meio a tantas explosões e correrias que predominam no cinema, Richard Linklater merece elogios por cativar o espectador com diálogos tão simples e valiosos e que demonstram a importância da linguagem e da comunicação, associando isso a belas imagens que desenham os sentimentos dos personagens quando as palavras não dão conta.. No fim, despedidas precisam ser feitas, e fica a quem assiste o gosto de "quero mais". Para terminar, aparecem imagens da Viena que foi palco de um intenso encontro de amor, mas sem mais os dois sonhadores, já que precisaram acordar e retornar à vida normal. O que sobra é a promessa do reencontro e a mostra de que, sim, o amor pode existir até mesmo num pequeno intervalo entre um dia e outro.

O Senhor das Moscas, de William Golding






Diz-se que, numa noite de Natal, Golding lia para seus filhos. Descontente com a história, foi até sua esposa e disse: "eu posso escrever um livro muito melhor do que esse", ao que ela respondeu: "pois então sente e escreva". O resultado foi a incrível obra O Senhor das Moscas, que fora rejeitada por quatro editores e que não obteve grande sucesso na época do lançamento. Entretanto, mais cedo ou mais tarde o mundo acabaria por reconhecer o valor dessa história, e no ano de 1983 o autor recebeu o Prêmio Nobel da Literatura. Mas foi além. O romance se tornou leitura obrigatória dos mais diversos cursos em faculdades e escolas pelo mundo todo.

Publicado em 1954, após ter recebido a rejeição por parte de inúmeras editoras, o livro narra a ida gradual do homem rumo a um estado de natureza em que predomina a barbárie, há liberdade mas não existe segurança, tudo da maneira mais hobbesiana possível. Os personagens são todos crianças que acabaram por ficar à deriva numa ilha deserta, após terem sido enviados por seus pais para longe da guerra  não fica claro se é a Segunda Guerra ou talvez uma Terceira, imaginada pelo escritor.

Nessa ilha, os garotos tentam reproduzir a sociedade que conheciam. Num primeiro momento eles conseguem, ao escolherem um líder de forma democrática e esse representante cria algumas regras para um melhor convívio. Entretanto, o resto da história destoa totalmente desse início. Gradativamente, os desejos animalescos dos garotos emergem. O autor mostra que esses desejos são intrínsecos ao homem, mas choca ao utilizar crianças para enviar sua mensagem.

Ralph, o líder, procura manter a ordem através da democracia e sempre busca um equilíbrio entre as desejos selvagens de Jack e as críticas racionais de Porquinho. Com isso, Golding recria o psicológico humano, e essa é a sua forma de dizer que existe um pouco de cada personagem em nós. Na história, com o passar do tempo, surgem duas facções: a daqueles que desejam ser resgatados, que dedicam-se a manter uma fogueira acesa no alto do morro, e daqueles que querem se entregar aos instintos primários e ficar na ilha, sobrevivendo da caça de porcos.

O Senhor das Moscas é um marco da literatura ocidental e ainda ecoa no imaginário coletivo. Foi escrito por um homem que vivera os horrores da Guerra e que, como grande parte do mundo, também teve o psicológico abalado em reação ao descobrimento do holocausto nazista. De um indivíduo talhado pela guerra, pelo sofrimento e pelo medo, somando isso ao professor primário e pai que já era, não se poderia esperar algo menos visceral que isso. O retrato do medo ganha um destaque especial no livro. Existe algo na ilha que assusta a todos, crianças mais novas têm pesadelos e os caçadores, num ato iludido para garantir-lhes a segurança, cravam cabeças de porcos em estacas como oferenda ao "monstro da ilha". O único trecho do livro em que o título é mencionado é quando um garoto epilético em pleno delírio conversa com uma dessas cabeças, que se apresenta como o "Senhor das Moscas" (um dos nomes do Diabo), e esse momento acaba por acrescentar um toque de onirismo ao livro.

Nessa obra-prima da literatura, William Golding utiliza crianças para falar sobre como podemos ser cruéis, nos corromper e destruir a nós mesmos, fazendo valer a máxima de Hobbes de que "o homem é o lobo do próprio homem". Além do mais, ao fazê-lo, Golding cria uma aura escatológica, como se a ilha onde não há regras fosse o destino inevitável da nossa raça  criando um paralelo entre crianças fugindo da guerra e uma espécie que encontrou o fim na própria guerra.

O Senhor das Moscas é uma análise profunda do homem e da sociedade, sobre como vivemos em grupo e a nossa busca incessante pelo poder. O autor também imerge no psicológico humano e desenvolve nossos medos, relembra nossos pesadelos. Acima de tudo, a magnum opus de Golding pode ser visto de duas maneiras quase opostas: um lembrete ou um aviso (por que não ambos?). Um lembrete do poço de selvageria de onde saímos, ou um aviso de que, dependendo de como agirmos, voltaremos para esse mesmo poço.

O Substituto, de Tony Kaye


"E nunca me senti tão profundo e, ao mesmo tempo, tão alheio de mim e tão presente no mundo." 
 Albert Camus

O título original do filme O Substituto é "Detachment" e, dentre as possíveis traduções para essa palavra, a que mais se encaixa é "indiferença". Creio que essa seja a palavra-chave do filme. Para o espectador desavisado, porém, essa "indiferença" pode se referir apenas ao sentimento dos alunos daquela escola apresentada no longa. Entretanto, isso seria um eufemismo.

Não julgo ninguém. Da primeira vez que assisti a esse filme, também pensei assim. Foi só depois, quando resolvi revê-lo sob um olhar mais atento, que notei o quão fiel é o título à obra em si e a todas pessoas que nos são apresentadas nela. O descaso surge de todas as direções: dos alunos, professores, pais e todos os demais membros que integram este organismo.

A história segue a vida do professor Henry Barthes, um homem amargurado que passa seu tempo escrevendo, o qual suas únicas alegrias estão nas lembranças calorosas da mãe, que se suicidou quando ele ainda era criança. Henry é um talentoso professor de literatura, com uma incrível capacidade de conquistar seus alunos. Mas esse é um filme frio, e se prova assim ao nos apresentar um indivíduo que prefere trabalhar como professor substituto, a fim de evitar a aproximação com os alunos.

Acompanhamos o dia-a-dia de Henry, assim como suas relações  na maioria, conturbadas  com as pessoas à sua volta. Ele possui um passado obscuro com o seu avô, que atualmente é um homem muito doente, mas resolveu deixar isso de lado (apesar de guardar ressentimentos) para cuidar dele da forma que pode. Na escola, sua primeira aula é marcada por um momento tenso em que é afrontado por um aluno e suas habilidades como educador são postas à prova. Fora da escola e em meio a acasos, desenvolve uma amizade improvável.

O Substituto é um filme angustiante. Tony Kaye, o diretor, acentua essa angústia devido a uma câmera inconstante, que está sempre mudando de posição. Nas situações mais tensas, ela treme e adquire o ponto de vista de um agressor, a exemplo do momento em que uma professora é ameaçada por uma garota e, em seguida, cuspida por ela. Para reforçar o sofrimento do longa, o diretor adicionou relatos em preto e branco de professores, dando um tom documental ao filme.  Tony também cria uma atmosfera mais intimista ao usar planos fechados nos rostos dos personagens. Adrien Brody, aliás, desempenha uma atuação incrível na pele do professor, com seu olhar melancólico e distante, tornando-o um homem profundo, perdido em sua poesia. Tony Kaye também assina a direção da fotografia, e faz um trabalho impecável, alternando a fotografia clara e fria com as memórias do protagonista, que são quentes e saturadas, e os já citados momentos em preto e branco.

Tony Kaye, a mente por trás do excelente A Outra História Americana, repete a dose. Ele imprime um olhar realista sobre a educação atual, abordando todos que a integram e expõe a decadência do sistema educacional americano (que sofre problemas parecidos com os que as escolas brasileiras enfrentam). O filme é também inspirador e poético em alguns momentos, mas essa beleza apenas suaviza os contornos ásperos da realidade triste transmitida no resto da obra. 

Assim como em A Queda da Casa de Usher, onde Poe descreve não só a tristeza de uma casa velha, mas também um estado de ser, O Substituto, apesar das duras críticas ao formato desgastado e ineficiente da educação moderna, não para por aí e analisa aqueles que a compõem, revelando os conflitos internos de cada um. O Substituto é um filme que, ao mesmo tempo que inspira, nos choca. No fim, ficamos como o professor Henry, que tem dentro de si a indiferença misturada à vontade utópica de mudar o mundo.


Os Livros da Magia, Neil Gaiman


"Garoto! Você acredita em magia?"

Como você agiria se tivesse a chance de conhecer os mistérios dos nossos mundos, lugares além do conhecido e, ainda, ver a origem e o fim da vida e do Universo? Timothy Hunter ganhou essa oportunidade. Mas, apesar de parecer belo, a responsabilidade por trás desse convite é imensa. Um peso que talvez ele não consiga suportar.

Jogador nº 1, Ernest Cline


Três Chaves. Três Portões. O prêmio? A promessa de muito dinheiro e mais a posse do OASIS. Cinco jogadores à frente, o resto do mundo tentando alcançá-los e uma empresa que não mede esforços para obter o que deseja, nem que isso inclua assassinato. É sob essa atmosfera que se desenvolve Jogador nº 1. Mas espere aí, voltemos ao início.

A Terra está doente. Estamos 30 anos no futuro. Fontes energéticas estão em falta. A miséria é algo presente em grande parte do mundo e, para piorar, o planeta sofre terríveis mudanças climáticas. Em meio a tudo isso, existe o OASIS, que é uma plataforma ultramoderna, espécie de utopia virtual, uma Matrix em que as pessoas podem fugir da realidade nada agradável em que vivem.

A história começa com a notícia da morte de James Halliday, gênio nerd e bilionário, inventor do OASIS. Ele passou os últimos anos de sua vida projetando algo novo, e esse algo novo é um campeonato dentro do próprio OASIS, que consiste na busca pelas Três Chaves que abrem os Três Portões. As pistas — ou easter-eggs — deixadas por ele fazem referência ao mundo nerd. Isso acaba gerando uma legião de fanáticos que dedicam todo o tempo à procura das pistas, e que ficam conhecidos como os "caça-ovos". Entretanto, cinco anos se passam e nenhuma novidade é anunciada. O jogo mostrou-se mais difícil que o esperado. Até que num dia tão normal quanto qualquer outro, um nome surge no placar de Halliday: Parzival, e ao lado dele está uma chave que representa a Chave de Cobre. Depois de cinco anos, o mundo está de volta ao alvoroço.


Parzival é Wade Watts, um garoto órfão e pobre que vive com a tia negligente nas favelas e que, assim como qualquer outra pessoa no mundo, sonha em vencer A Caça. E após muito tempo, ele é o mais próximo do prêmio. Na verdade, o único. Mas isso não dura. Ele consegue avançar no campeonato, mas outras pessoas o fazem também. Agora, Wade precisa se apressar se quiser ser o vencedor. Entretanto, o fato dele ter sido o pioneiro no campeonato o colocou na mira da IOI, uma empresa rival que deseja monopolizar o OASIS. Eles têm um arsenal de tecnologia e pessoas a seu favor e não hesitam nas formas para alcançaram tal objetivo. O encontro de Wade com a IOI não será nada agradável, e ele precisará unir forças com os outros competidores.


Ernest Cline não titubeia em seu romance de estreia. Sua escrita nos transporta por mundos diversos, quase todos referenciando histórias nerds, e temos uma experiência muito visual devido à incrível capacidade descritiva de Cline, que foi moldada enquanto trabalhava como roteirista em Hollywood. Em meio a tantas informações e acontecimentos, o autor ainda consegue, mesmo que de forma bastante subjetiva, encaixar uma crítica à maneira como imergimos tão facilmente em algo ilusório e deixamos o real de lado. Como nem tudo é perfeito, a obra também possui seus defeitos — um deles são os personagens arquetípicos —, porém são poucos e acabam se tornando reles ante a qualidade inquestionável da história.


Jogador nº 1 é uma odisseia pelo mundo geek, e o autor presta uma homenagem aos clássicos da literatura, cinema, games e até música. Dentro de tudo isso, a cultura oitentista recebe uma atenção especial. Cline insere inúmeras referências em seu livro, que vão desde as mais explícitas, como as transcrições de cenas de filmes como Blade Runner, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado e Jogos de Guerra, até as mais implícitas, como... Bem, essas eu vou deixar para vocês descobrirem. Jogador nº 1 é uma mistura de ficção científica com ação, suspense cibernético e ainda um pouco romance. O resultado é uma obra muito versátil e com potencial para agradar diversos tipos de leitores. Então, está esperando o quê? Junte-se a nós na procura pelas outras chaves e na luta contra a temível IOI.

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

Fahrenheit 451 é uma história trágica. Tentem me entender: para qualquer pessoa que tenha um certo amor por livros, a ideia de um mundo em que eles são proibidos e consequentemente queimados não é nada agradável. Se a intenção do autor era causar desconforto, ele conseguiu. Mas também fez muito mais que isso.

Escrito nos porões da biblioteca da Universidade da Califórnia (uma bela ironia) por Ray Bradbury na década de 50, o romance ─ cujo título faz alusão à temperatura de combustão do papel ─ é uma distopia e nos apresenta uma sociedade hedonista, a qual condena qualquer ato de pensamento individual diferente do senso comum.

Nesse mundo, os bombeiros não têm mais a função de apagar incêndios, mas sim de criá-los. Nesse mundo, a arte não existe, e quem dita o que deve ou não ser apreciado são os meios de comunicação, em especial as redes de televisão, e elas possuem unicamente o objetivo de manter os cidadãos num estado letárgico de alienação. Questionamentos, pensamentos críticos e tudo o mais que pareça ir contra as regras daquela sociedade é condenado. E eis que no meio disso tudo está Montag.

Ele, experiente bombeiro, nunca questionou as demandas que o cercam. Simplesmente cumpria sua função e era feliz com isso. Porém, num dia aparentemente normal, ele acaba conhecendo Clarisse, garota a qual possuía um modo peculiar de ver a vida. Seu jeito despretensioso, a forma atenta com que ela observa o que é considerado trivial e suas críticas aos costumes desperta curiosidade em Montag. No fim, ele próprio passa a analisar com mais atenção o que está ao seu redor. O encontro com Clarisse se torna a primeira faísca de uma mudança.

Pouco a pouco, o protagonista constrói uma amizade com a menina, sendo essa, de fato, a relação mais profunda que ele já experimentou. Com ela, a conversa flui normalmente e ele não precisa temer pelo que fala. Porém, cinco, seis, sete dias se passam, ele não a vê mais e isso causa nele mal-estar. Ele sente falta dela e teme que algo ruim possa ter acontecido.

E aí, os maus acontecimentos convergem. O que acontece a seguir acaba por transformá-lo ainda mais. Ele está no quartel jogando cartas com seus companheiros quando recebe uma denúncia. "Mais uma velha louca com seus livros", diz Capitão Beatty, com desdém. Mas aquele não era pra ser um dia normal. Na casa da senhora, Montag se depara com livros e mais livros. Num momento de insanidade, acaba por roubar um. Os bombeiros já encharcaram a casa e os livros com querosene, e estão a ponto de iniciarem o fogo, mas a senhora se recusa a sair e isto deixa Montag preocupado. Ele tenta tirá-la da casa e falha, e a mulher, com estranha calma, pega um fósforo e risca-o, incinerando a casa e a si própria. Por pouco que os bombeiros conseguiram salvar a si próprios. O ato deixou Montag perplexo. E assim, a faísca de mudança que fora iniciada por Clarisse se transforma numa chama.

Servindo de antagonista à história, temos Capitão Beatty, que é o chefe do quartel dos bombeiros. Ele logo faz valer seu título de vilão quando defronta um Montag cheio de dúvidas e inseguro, e revela-se muito inteligente, um homem que outrora fora um apaixonado por livros, mas que, segundo ele, chegou um momento em que "despertou" e viu que eles nada diziam. O Capitão, em seus argumentos, defende que os livros causam infelicidade e que, por isso, devem ser proibidos. De qualquer maneira, a opinião de Beatty não é completamente errada. Livros são aqueles que nos mostram o que há de melhor e pior em nós, entretanto, é justamente por isso que são importantes.

A narração ─ que é em terceira pessoa e segue o ponto de vista de Montag ─ é concisa, e Bradbury, através de sua escrita lírica, constrói uma obra extremamente poética. Um ponto alto do livro é a forma como o autor desenvolve a alienação geral. As pessoas são bombardeadas com assuntos supérfluos, e estão tão apegadas a isso que não percebem que há uma guerra ocorrendo. Ouve-se jatos sobrevoando a cidade, explosões são sentidas, mas nenhum outro detalhe acerca disso é dado ao leitor. Além disso, o autor via as televisões como instrumentos com alta capacidade de formatação de pensamentos, e grande parte de sua crítica no livro é direcionada a elas.

Antes de mais nada, esse livro é um manifesto de amor aos próprios livros, uma maneira de honrá-los. A outra mensagem é ainda mais profunda: o pensamento de que o que importa, no fim das contas, não é o físico e material, mas sim as palavras, as ideias, o conhecimento abstrato e que deve ser passado de indivíduo para indivíduo sem, necessariamente, depender do papel para isso. Obras de arte podem ser queimadas. Aparelhos podem ser quebrados, estragados. Mas as ideias, ah, essas, ninguém pode destruir.

Clube da Luta, Chuck Palahniuk


                                      "Esta é a sua vida e ela está acabando, um minuto por vez."
                               
A primeira regra do clube da luta é... não, vamos esquecer disso por enquanto.

Clube da Luta, livro de estreia do autor Chuck Palahniuk, trata, antes de tudo, sobre as regras. Regras que as pessoas impõem-se. Regras que a sociedade nos impõe. As regras do clube da luta. Essa é a definição do próprio autor para a obra. Lançado em 1996, o livro se tornou um clássico contemporâneo devido às inúmeras críticas ao nosso mundo e às criaturas que nele vivem.

Quem conduz a narrativa é o nosso querido personagem sem nome que, assim como milhares de pessoas, é escravo de um sistema social alicerçado no prazer ante o consumo exagerado e desnecessário. Ele tem um bom emprego, um bom carro e um bom apartamento abarrotado de móveis e utensílios dos quais não precisa. Apesar disso, sofre de insônia e não há nada que o faça voltar a dormir. Entre idas e vindas, sua vida acaba se chocando com a de duas pessoas: Marla Singer e Tyler Durden. Marla, a garota inquietante que o defrontou, e Tyler, o amigo excêntrico que o mostrou a solução. Ele odeia Marla. E ama Tyler.

O excêntrico Tyler, por sua vez, tem uma ideia e desenvolve, junto a nosso humilde narrador, um clube de lutas, no qual homens frustados se reúnem com o intuito de esbravejar sua masculinidade, e gritar a todos o quanto estão insatisfeito com o mundo. O grupo é composto, em sua maioria, por pessoas que Tyler define como os "filhos do meio" do  mundo, "aqueles que são rejeitados até pelo próprio Deus". Logo, os clubes da luta disseminam-se, ficando cada vez maiores e mais famosos, Durden torna-se uma lenda viva e, usufruindo da popularidade dos clubes, cria um plano que irá sacudir a sociedade, e apenas nosso querido narrador sem nome pode impedir isso.

Clube da Luta é um livro ácido, inortodoxo e cheio de críticas. Possui uma narrativa simples e sem floreios. Por vezes, nos deparamos com flashbacks que, assim como tudo no livro, chegam sem avisar. A obra possui altas doses de existencialismo, com trechos e citações que são verdadeiros tapas na cara do leitor. A escrita de Chuck é diferenciada, podendo causar no início um pouco de estranheza a quem lê, mas não vejo isso como uma coisa ruim. A narrativa é enérgica e habilmente guiada por nosso protagonista, e afirmo sem dúvidas que o capítulo final é uma das cenas mais impressionantes que já li.

Por isso, e muito mais, junte-se ao Clube da Luta, seja um macaco espacial e faça parte da revolução de Tyler. E lembrando, o livro trata das regras. O clube em si é o de menos.
 

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