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O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami





"O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver qualquer reação, ambas são transformadas". JUNG, C. G.

Títulos são coisas fascinantes. Acredito que quanto maior e/ou mais louco for o título, maiores são as chances de eu ser atraído pela obra. "O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação", que descobri através de um marcador de página (muito bonito, por sinal), não é uma exceção a essa minha teoria. No momento que descobri que o autor desse livro com nome gigante e estranho era nada mais, nada menos do que Haruki Murakami, eu logo senti a necessidade de ir atrás do livro e saber do que se tratava. Mas não mentirei: nunca tinha lido nada do senhor Murakami e logo percebi que "O incolor Tsukuru Tazaki" seria um ótimo lugar para começar.

Responsável pela trilogia de grande aclamação pelos críticos literários, 1Q84, Murakami era meu conhecido de vitrine de loja havia um bom tempo. Sempre resisti à tentação de comprar um de seus livros (principalmente 1Q84) e lê-lo de forma voraz, e não sei explicar o motivo de ficar na defensiva ou de me sentir tão atraído pelos livros de um autor que eu jamais havia lido. Talvez (e entro no campo das coisas incertas agora), houvesse uma espécie de aura ao redor dos livros do senhor Murakami, como se dissessem "se você me ler, eu te darei algo especial; te farei se sentir especial". Foi assim que eu me senti após terminar "O incolor Tsukuru Tazaki": especial por ter lido um dos melhores livros da minha vida. Sem exageros.

Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva




Sincero. Assim eu descreveria o livro, se dispusesse de apenas uma palavra. É um texto que não guarda muitos segredos, que não tenta ser genial, que não se preocupa com um rigor literário, que não tem a menor ambição de ser tão impactante quanto é ─ ou pelo menos não deixa transparecê-lo. E que é extraordinariamente sincero.

"Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca.
Feliz Ano Velho, adeus, Ano Novo"

O Senhor das Moscas, de William Golding






Diz-se que, numa noite de Natal, Golding lia para seus filhos. Descontente com a história, foi até sua esposa e disse: "eu posso escrever um livro muito melhor do que esse", ao que ela respondeu: "pois então sente e escreva". O resultado foi a incrível obra O Senhor das Moscas, que fora rejeitada por quatro editores e que não obteve grande sucesso na época do lançamento. Entretanto, mais cedo ou mais tarde o mundo acabaria por reconhecer o valor dessa história, e no ano de 1983 o autor recebeu o Prêmio Nobel da Literatura. Mas foi além. O romance se tornou leitura obrigatória dos mais diversos cursos em faculdades e escolas pelo mundo todo.

Publicado em 1954, após ter recebido a rejeição por parte de inúmeras editoras, o livro narra a ida gradual do homem rumo a um estado de natureza em que predomina a barbárie, há liberdade mas não existe segurança, tudo da maneira mais hobbesiana possível. Os personagens são todos crianças que acabaram por ficar à deriva numa ilha deserta, após terem sido enviados por seus pais para longe da guerra — não fica claro se é a Segunda Guerra ou talvez uma Terceira, imaginada pelo escritor.

Nessa ilha, os garotos tentam reproduzir a sociedade que conheciam. Num primeiro momento eles conseguem, ao escolherem um líder de forma democrática e esse representante cria algumas regras para um melhor convívio. Entretanto, o resto da história destoa totalmente desse início. Gradativamente, os desejos animalescos dos garotos emergem. O autor mostra que esses desejos são intrínsecos ao homem, mas choca ao utilizar crianças para enviar sua mensagem.

Ralph, o líder, procura manter a ordem através da democracia e sempre busca um equilíbrio entre as desejos selvagens de Jack e as críticas racionais de Porquinho. Com isso, Golding recria o psicológico humano, e essa é a sua forma de dizer que existe um pouco de cada personagem em nós. Na história, com o passar do tempo, surgem duas facções: a daqueles que desejam ser resgatados, que dedicam-se a manter uma fogueira acesa no alto do morro, e daqueles que querem se entregar aos instintos primários e ficar na ilha, sobrevivendo da caça de porcos.

O Senhor das Moscas é um marco da literatura ocidental e ainda ecoa no imaginário coletivo. Foi escrito por um homem que vivera os horrores da Guerra e que, como grande parte do mundo, também teve o psicológico abalado em reação ao descobrimento do holocausto nazista. De um indivíduo talhado pela guerra, pelo sofrimento e pelo medo, somando isso ao professor primário e pai que já era, não se poderia esperar algo menos visceral que isso. O retrato do medo ganha um destaque especial no livro. Existe algo na ilha que assusta a todos, crianças mais novas têm pesadelos e os caçadores, num ato iludido para garantir-lhes a segurança, cravam cabeças de porcos em estacas como oferenda ao "monstro da ilha". O único trecho do livro em que o título é mencionado é quando um garoto epilético em pleno delírio conversa com uma dessas cabeças, que se apresenta como o "Senhor das Moscas" (um dos nomes do Diabo), e esse momento acaba por acrescentar um toque de onirismo ao livro.

Nessa obra-prima da literatura, William Golding utiliza crianças para falar sobre como podemos ser cruéis, nos corromper e destruir a nós mesmos, fazendo valer a máxima de Hobbes de que "o homem é o lobo do próprio homem". Além do mais, ao fazê-lo, Golding cria uma aura escatológica, como se a ilha onde não há regras fosse o destino inevitável da nossa raça — criando um paralelo entre crianças fugindo da guerra e uma espécie que encontrou o fim na própria guerra.

O Senhor das Moscas é uma análise profunda do homem e da sociedade, sobre como vivemos em grupo e a nossa busca incessante pelo poder. O autor também imerge no psicológico humano e desenvolve nossos medos, relembra nossos pesadelos. Acima de tudo, a magnum opus de Golding pode ser visto de duas maneiras quase opostas: um lembrete ou um aviso (por que não ambos?). Um lembrete do poço de selvageria de onde saímos, ou um aviso de que, dependendo de como agirmos, voltaremos para esse mesmo poço.

 

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