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Os filhos de Anansi, Neil Gaiman

“Essa história começa, assim como a maioria das coisas, com uma música. Afinal de contas, no começo havia as palavras, e elas vinham acompanhadas de uma melodia. Foi assim que o mundo foi feito, que o vazio foi dividido e que a terra, as estrelas, os sonhos, os pequenos deuses e os animais vieram ao mundo. Eles foram cantados.”

Charlie Nancy é o personagem principal nessa obra de Neil Gaiman. No início do texto, ele é apresentado como um homem mais pacato do que o recomendável, extremamente rotineiro, previsível e que tem uma vida e um emprego que tendem à monotonia. Charlie está prestes a se casar e, à pedido de sua noiva, acaba concordando em convidar seu detestável pai para a cerimônia, em uma tentativa de reaproximação, desejada pela noiva.

Deuses Americanos, Neil Gaiman

A primeira vez que eu ouvi falar de Deuses Americanos, na verdade eu o vi. Um amigo meu, durante algum dos estranhos anos do colegial, estava lendo e dizendo coisas boas sobre ele, coisas que eu não lembro; esqueço as palavras, mas lembro do sentido delas. Naquela época, eu não conhecia direito os trabalhos do Neil Gaiman, e a capa de Deuses Americanos me deixou meio blasé. Fui redescobri-lo apenas depois dos estranhos anos do colegial, depois que li minha primeira edição de Sandman e que eu precisava, como uma necessidade alimentícia, ler mais e mais dos trabalhos de Gaiman. Acabei conseguindo uma excelente promoção num site deveras conhecido da internet, onde comprei 4 livros dele por um preço muito camarada. E mesmo com essa necessidade, Deuses Americanos foi sempre ficando para depois, aquele reino encantado onde deixamos tudo aquilo que não queremos fazer agora. Mas o acabei pegando para ler agora, neste último mês de 2014, e aproveito o vazio causado para escrever minhas impressões.

Um pouco antes de começar a lê-lo, pensava que Deuses Americanos era uma versão americanizada de Lugar Nenhum, obra que eu mesmo já resenhei há alguns meses. Entretanto, logo ao terminar o primeiro capítulo, percebi que estava muito enganado a seu respeito: Deuses era mais em todos os sentidos. Mais longo. Mais intenso. Mais adulto. Mais incrível. Mais admirável. Muitos leitores consideram este livro o melhor da carreira de Gaiman e agora entendo muitíssimo bem o porquê.

O livro todo tem um tom estranho, como se só as coisas necessárias para aquele momento estivessem sendo mostradas, com o ar de mistério pairando sobre o leitor do mesmo jeito que paira sobre os espectadores durante uma peça de teatro, esperando ver quem será o próximo ator a entrar e quais serão as mudanças de cenário no próximo ato. Isso te faz grudar no sofá, na cadeira, na cama, e virar as páginas em busca de mais respostas, de mais mistérios.

E o tema é absurdamente genial. Neil Gaiman sempre trabalha com o conceito de entidades mágicas em suas obras, em coisas tão incrivelmente loucas que fazem muito sentido, e Deuses não fica para trás nesse quesito. Imagine que todos os povos que foram para os Estados Unidos levaram, junto com eles, seus deuses, sua fé, sua cultura, e imagine que esses deuses se instalaram nos Estados Unidos, se alimentando dos rituais feitos por aqueles que acreditavam neles, dos sacrifícios, das oferendas. Imagine também que esses mesmos deuses, com o passar do tempo, foram ficando mais fracos porque as pessoas paravam de acreditar neles e começavam a louvar outras divindades. Divindades como a mídia, como o computador, como a autoestrada. Divindades novas para tempos novos e modernos, onde a crença deixa de seguir o antigo e prossegue com o que é real, com o que é novidade, com o que tangível. Imagine então que vai acontecer uma tempestade e que os deuses novos estão se preparando para exterminar os deuses antigos e declarar, de uma vez, que os Estados Unidos, essa terra desolada que não foi feita para os deuses, pertence a eles. Imaginando tudo isso, você acabou de chegar na espinha dorsal de Deuses Americanos.

A história conta tudo isso a partir da visão de Shadow, um presidiário que está prestes a ser libertado devido a bom comportamento. Um dia antes de sua liberdade, ele é levado até o diretor da prisão que o deixa sair mais cedo por motivos de força maior: a mulher de Shadow, Laura, acabou de morrer. Shadow, então, sai da prisão e pega seu caminho para comparecer ao enterro de sua mulher, até que um velho ruivo, de terno claro e gravata, aparece em sua vida lhe oferecendo um trabalho. Seu nome é Wednesday e ele é um pilantra. Depois de uma fase de negação, Shadow acaba aceitando trabalhar para o senhor Wednesday, servindo de um faz tudo para ele. Wednesday, obviamente, é uma das divindades antigas (mesmo que você não saiba qual logo de cara), e ele parte com Shadow ao seu lado numa road trip em busca de outras divindades antigas, alertando-as para a guerra iminente e fazendo com que elas se unam a sua causa.

Lendo o livro através da visão de Shadow, aquele que não sabe absolutamente nada das coisas, o clima de mistério e de suspense é sempre presente. Gaiman, durante o livro, vai deixando pistas para que, antes mesmo dele dizer o que está acontecendo e quem é quem, o leitor consiga desvendar algum desses mistérios, o que não torna somente o livro interessante no ponto de vista da temática, como também muito divertido de ser lido.

Deuses Americanos é um livro que me surpreendeu e que deixou aquele vazio característico de quando você termina de ler um bom livro e não sabe mais o que fazer da vida. Ele tem Gaiman surtado em várias características (o que é algo maravilhoso), tem divindades de várias culturas mundiais, tem suspense, tem comédia, tem personagens carismáticos, tem inúmeros plot twists, principalmente nas últimas duas partes do livro, e tem filosofia. Minha recomendação neste exato momento é a seguinte: leia-o o quanto antes, pois é uma experiência incrível.

Lugar Nenhum, de Neil Gaiman



"- Desculpe - disse para o segurança aturdido, enquanto se soltava, e fugiu. - Entrei na Londres errada."

Essa frase define bem o tom de Lugar Nenhum (do original, em inglês, "Neverwhere"), livro que segue o contrário do padrão das adaptações: ele foi lançado depois de terem concluído a série de televisão de mesmo nome. Ainda, de forma irônica, o livro é consideravelmente mais famoso do que a série, que ficou praticamente restringida ao território do Reino Unido e a fãs da história e do autor.

O livro conta a história de Richard Mayhew, escocês que foi para Londres devido a uma oportunidade de emprego. Lá, ele acabou ficando noivo de Jessica Bartram (um pouco controladora, diga-se de passagem) e prosseguiu com sua vidinha monótona até que, um dia, indo a um jantar com sua noiva, eles se deparam com uma menina ensanguentada no meio da calçada. Jessica diz para irem logo, porque já estão atrasados, e que outra pessoa passaria por ali e ajudaria a garota, mas Richard resolve que precisa ajudá-la. Ele tenta levá-la ao hospital, mas a garota diz que não, ele não pode levá-la ao hospital. Jessica começa a fazer ameaças, dizendo que acabaria com o noivado deles se não deixasse a desconhecida lá. Richard levanta a garota nos braços, dá as costas à noiva e vai andando de volta ao apartamento.

O que ele não sabe é que a garota se chama Door ("Porta", em inglês) e há dois assassinos/ladrões/torturadores que estavam atrás dela, tentando capturá-la. Quando Richard aparece e a salva, ela tinha acabado de se deparar com os dois e conseguido fugir, usando seu dom de abrir coisas (agora o nome dela faz sentido, não é?) e pedindo por ajuda. A porta que ela abre, do nada, a leva diretamente a Richard, como se fosse algo do destino.

No apartamento, Richard tenta ajudá-la sem saber o que está prestes a acontecer a ele. Depois de fazer algumas coisas à ela, como sair a procura de um marquês, sem perguntar por que, Door vai embora com seu amigo, o Marquês de Carabas, e pede desculpa ao sair. É aqui que tudo muda: Richard parece não existir mais. Depois de seu contato com Door e tudo que a envolve, Richard parece não existir para ninguém. Ele tenta um táxi e ninguém para; quando um está prestes a atropelá-lo, ele faz uma curva, para evitá-lo, e continua no seu caminho. No seu emprego, ninguém o vê, ninguém o percebe. Sua mesa está sendo tirada do escritório. Ele tenta falar com a noiva, pedir desculpas, e ela, enxergando-o com muita dificuldade, não sabe quem é ele. Richard se vê desesperado e tenta ir atrás de Door para, finalmente, descobrir que existem duas Londres: a de Cima e a de Baixo; a de Cima sendo a sua monótona e cinza Londres e a de Baixo uma Londres mágica, perdida no tempo. Ao se deparar com Door na calçada, ele trocou de Londres, podendo nunca mais voltar para sua vida normal. Ele vai atrás daquela que mudou sua vida por completo e, então, a aventura realmente começa.

Com toques de humor e ironia, clássicos de Gaiman e outros autores ingleses, Lugar Nenhum é uma história fantástica, tanto pela sua nuance mágica quanto por sua qualidade. Os personagens, mesmo que não sejam todos carismáticos, são brilhantes por si próprios e prometem surpreender com suas decisões através do desenvolvimento do livro, até chegar ao último capítulo com sua brilhante conclusão. Richard é covarde, mas possui tanto de Arthur Dent (personagens de O Guia do Mochileiro das Galáxias), ainda mais no começo da história, que é difícil não gostar dele com o passar das páginas; Door, com seu Dom e sua busca para saber quem matou sua família e por que; De Carabas, arrogante e convencido, mas brilhante; Hunter, a guarda costas; Sr. Croup e Sr. Vandemar, os vilões; e muitos outros personagens que garantem o sucesso do livro.

Lugar Nenhum é construído pouco a pouco com uma história, apesar de mágica e louca, verossímil, maior qualidade de Neil Gaiman ao contar suas histórias. É um livro curto, com menos de 350 páginas, e garante boas horas de divertimento e de curiosidade enquanto explora o cenário de Londres de Cima e de Baixo, de maneira fabulosa, fazendo-nos acreditar que existe tudo aquilo na vida real. Seu final, digno de palmas por não ser apenas mais um final, mas um convite a pensar muito além, conclui o romance de maneira fantástica, garantindo o livro a minha lista de recomendados.

Os Livros da Magia, Neil Gaiman


"Garoto! Você acredita em magia?"

Como você agiria se tivesse a chance de conhecer os mistérios dos nossos mundos, lugares além do conhecido e, ainda, ver a origem e o fim da vida e do Universo? Timothy Hunter ganhou essa oportunidade. Mas, apesar de parecer belo, a responsabilidade por trás desse convite é imensa. Um peso que talvez ele não consiga suportar.

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman




O Oceano no Fim do Caminho é um livro que fazia tempos eu estava esperando uma oportunidade para ler e esperava MUITA coisa dele, pois todas as pessoas que o leram diziam ter chegado ao ponto das lágrimas rolarem. Não chorei, não gargalhei durante a leitura, não sorri. O que este livro me causou foi além disso, muito além. Foi uma verdadeira comoção, no sentido mais visceral da palavra.

A história do nosso protagonista sem nome (sim, seu nome não é mencionado em momento algum) é feita de lembranças atormentadoras de seu passado. Já em sua meia-idade, ele volta em sua cidade natal para um velório e acaba se dirigindo (sem querer?) até a fazenda da família Hempstock, governada por três poderosas "mulheres" de idades variadas, sendo Lettie a mais nova do clã. Nesta mesma fazenda há um caminho, e no fim um lago, que Lettie gentilmente chama de oceano. Quando se depara outra vez com este lago as memórias de nosso protagonista voltam completamente, memórias de uma infância quase esquecida, onde a escuridão tomou conta de sua vida.

Tudo começou quando sua família sofre uma crise financeira e passa a alugar seu quarto, indo parar lá um sul-africano que acaba cometendo suicídio após perder o dinheiro de amigos em jogatinas. A partir deste acontecimento um mal é despertado na cidade e com a ajuda de Lettie o garotinho tem que detê-lo. Mas não é fácil, pois a criatura do mal infiltra em sua casa como sua nova babá, conquistando o carinho de todos e deixando-o encurralado.

Há muitos elementos de fantasia no enredo de O Oceano no Fim do Caminho, desde citações à mitos até Nárnia e chegando realmente a existir criaturas. O livro é perturbador, narrado por um surpreendente personagem de sete anos, alternando frases extremamente cruas e marcantes. Os personagens são desenvolvidos com agilidade e colocados em situações onde são necessários, sem necessidade de nomes em alguns momentos.

A escuridão é um tema onipresente, enchendo as páginas e nos fazendo voltar ao tempo em que o medo de dormir com a porta fechada era maior do que a vontade dormir, época em que líamos escondido depois do horário de dormir. Uma outra característica interessante é quanto ao teor adulto implícito na história, mesmo só havendo uma leve cena em que o garotinho presencia uma cena de sexo. Há frases meio dúbias em alguns trechos, talvez sem malícia alguma para um menino de sete anos, mas altamente inflamáveis para leitores com vinte.

No fim, ficamos nos perguntando: "Cara, tudo isso foi real ou não?", mas tanto faz, para mim foi real. Eu senti várias vezes as sensações que o "sem nome" viveu: sentia um verme em meus pés, os pássaros voando em minha volta, as águas do Oceano emergindo todas as perdas do passado. Enfim, eu vivi este livro.

Meu único contato anterior com Gaiman foi com Coraline, que também me aterrorizou um pouco, e agora só penso em ler cada título deste homem que possui as palavras na alma. Então, faça como eu. Siga a trilha de terra, percorra o caminho e, por fim, mergulhe neste Oceano.
 

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