A mulher de Pilatos, Antoinette May


“Roma era uma ousadia, uma provocação que desafiava tudo e prometia ainda mais. As ruas estreitas tinham um cheiro peculiar, uma mescla estonteante de perfume e alho, especiarias, suor e incenso. Elas fervilhavam com cantores de baladas e mendigos, escribas e contadores de história...”

A grande riqueza de detalhes, ambientação histórica e escrita sedutora fazem deste livro algo único e memorável. “A Mulher de Pilatos”, conta a trajetória de Cláudia, a esposa do Pôncio romano, Pilatos, com quem se casa apesar de estar apaixonada por outro homem. Cláudia tinha fortes visões sobre eventos futuros, algumas claras e outras misteriosas, mas sempre intensas e perturbadoras.

A mescla de ficção, dados históricos e reconstrução bíblica imaginativa são os ingredientes perfeitos para fazer com que o leitor mergulhe na vida sedutora de Cláudia Prócula, uma personagem intensa, esperta e com uma visão de mundo dissonante da de seus pares. A história principal é desta personagem, começando em sua adolescência, em uma sociedade machista, na qual ela usa todos os recursos disponíveis para, apesar das imposições contrárias, conseguir seus objetivos.

O período histórico é descrito com detalhes que nos fazem quase sentir-nos partes das agitações sociais, religiosas, políticas e dos conflitos e disputas entre os personagens, especialmente quando descobrimos que Cláudia era amiga íntima de Miriam de Magdala (Maria Madalena). A esposa de Pilatos prevê um futuro terrível para sua amiga, para o marido e para o radical religioso com quem Miriam tinha um relacionamento, Jesus de Nazaré.

Cláudia convive com personagens históricos muitíssimo interessantes, desde o irritável Tibério, o instável Calígula e, posteriormente, com a polêmica Miriam de Magdala, de quem se torna amiga e confidente. Por meio dessa amizade é que Cláudia perceberá o momento histórico determinante que ela vive. Tudo isso só se faz claro para o leitor graças a forma envolvente como May escreve este romance. Foram 14 anos de pesquisas e estudos sobre o Império Romano e sobre a sociedade em conflito na qual Jesus de Nazaré teria vivido.

O desfecho da trama é crível e faz total sentido com todo o contexto da história. Ele encerra um ciclo que foi desenvolvido por homens e mulheres de fibra, ainda que essa fibra nem sempre seja usada somente para o bem. De todas as ficções históricas que conheço, essa é a mais saborosa. A capacidade de usar fatos e relatos históricos e de preencher as lacunas desses relatos faz de Antoinette May uma autora refinada e consciente. Vale a pena conferir a perspectiva feminina e de enfrentamento de uma heroína reconstruída criticamente que relata o período que dividiu a história do ocidente em duas.

“- Pilatos com certeza deve estar achando intrigante a sua relutância. Creio que está na hora de lhe darmos alguns esclarecimentos.
- Não! Não há necessidade disso.
- É tarde demais, minha cara. Pena que você nunca voltará a ver sua filha, e, quanto a seu precioso Holtan, mandarei açoitá-lo até a morte. Demorará muito para matar um homem dotado de toda aquela força. [...]
Fiquei a encará-la, com as mãos agarradas às costas de um banco para sustentar meu corpo trêmulo.
- Por favor – supliquei, num murmúrio rouco. Nesse momento, Pilatos entrou no átrio.
Lívia deu um sorriso simpático.
- Sua encantadora esposa e eu estávamos discutindo sua nomeação. Creio que ela tem algo a lhe dizer.”

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